Habitar as palavras é vulcanizar sensibilidades


Partir me parece agora uma palavra que deriva de "parto" ou "dor". Estou reorganizando as palavras em seus tristes sentidos, depois de fazer chover o português lusitano em meu varal de português latino-americano. Procuro despir a semântica do meu desejo em permanecer em Portugal até secar as palavras. Coimbra é uma tocha ardente dentro de mim. Fico recolhendo retalhos de quem eu era antes de acariciar os poros das derradeiras palavras, repronunciadas com a boca cerrada. Sinto-me um menino que ligeiramente se esqueceu a mecânica de andar e agora procura alisar o chão como recomeço. Retomba sobre mim a força bruta de recriar meus passos, e sem ter chãos para pisar ou palavras familiares para saborear, me sinto ilhado, como um descobridor de velhas terras. Todas as palavras me parecem suplicas infantis ou dogmas revisitados. Meus pés se enraízam em Coimbra como as raízes de uma arvore penetrada no Jardim Botânico, o joelho sensual da Praça da República. A minha fé pagã, que não é cega, refloresta meu culto ao presente, embora o passado me pareça um bom altar. Partir, que é verbo atuante, sussurra e assopra no relicário de sentimentalidades do meu pesar. Otimista, flerto com o tempo. Sinto no soar do horizonte a charmosa curva que oculta um oceano de novas palavras, envolvidas em novos sentidos. E diante disto, saudade é palavra gasta. Denuncio meu culto ao agora. Só me resta o novo.







Apanhei a caneta das calças
E pensava em ti quando
Escrevi poemas
líquidos, sórdidos, pastosos.

O rijo objeto em minhas mãos,
A deixar rastros de uma tinta embranquecida
Viscosa e úmida,
Salivante.

E alimentando-te de poesia, doce e inodora
Afogavas na boca o falo das palavras
Armadas e em estado de atenção.

A tensão fiel da folha em branco,
Desnudando o prazer de te ter na minha
Boca,
Aturdida,
Com porosas sensações.

Escrevo um poema,
Da página e do chuveiro,
Oro e rogo ao dilema:
Se deixo guardado o que falo
Ou se permito escorrer pelo ralo.

(Bruno Silva, maio de 2014)



Oração em Silêncio


Fui a um templo
Procurar paz,
Mas eles gritavam tanto
Pra Deus ouvir,
Que não havia espaço
Para sentir mais nada,
nem Deus, nem os ouvidos.

(março de 2014)



A Beleza e a Dor

Palavras bonitas. Eu já as conheço de longa data. Fui criado com elas. Fui crescendo ouvindo o tambor de suas surdas vozes tilintintar nos meus ouvidos. O estampido de seus interesses reais, sim, me apavora. Enquanto o discurso é montado e em cima do palanque o enfático e doce interlocutor expõe as tais palavras bonitas, minha razão chora. E por diversos motivos. A nefasta lógica por detrás daquelas palavras que soam belas e aprazíveis. O engenho precário e falacioso delas. O amor exposto como carne em açougue local. O perdão devassado. A solidariedade prostituída. Aquelas leis, mortas e sagradas, fortemente induzidas e manipuladas pelos sentimentos inferiores do mundo. Palavras bonitas. Eu já as conheço de tempos distantes. Se alguma vez elas me tocaram à alma, o fizeram não por merecimento, mas pela intensa ingenuidade dos anos que precede a maturidade. Entretanto, é bem certo, estas palavras moralmente ambíguas que me atingiram, jamais aplacaram a minha mais íntima dor. A dor diante da existência e da racionalidade perversa que pode haver na beleza. E a beleza, perante minha dor, não é nada.

Bruno Silva

Em frente a minha casa, nas laterais da imaginação, tem um jardim florido e frondoso, repleto de segredos e sereias. Eu nunca atravessei as veias deste jardim imenso, sem que me conquistassem as flores e sem que o imaculado silêncio de verdes curvas me tocasse. Na extremidade do jardim, numa das entradas pra seu coração, há uma biblioteca municipal, também repleta de segredos e sabores. Há no canteiro do arco inicial uma senhora que gosta de entoar velhas canções de casamento sempre que me vê chegar, letras tão tristes quanto suas sandálias amarrotadas. Há bem ao longe, embora ainda no corpo do jardim, um pássaro muito do brasileiro assobiando para gajas e gajos que trafegam, escondidos e misteriosamente envolvidos em suor, capa e batina. 

Eça de Queiroz, que habita próximo a minha sacada, deixou como oferenda seus versos mais íngremes, daqueles que provoca no ouvinte a bravura e surpresa de empunhar sua espada para se defender do tédio.

Há também no silêncio negro do colorido jardim, certa simpatia por encontros. No que me sentava no aconchegante banco de pedra ao pé de sua tímida lagoa, observando as paisagens fabricadas do sexo entre a natureza e o tempo, bastava sentar que essa atmosfera se incumbia de me apresentar alguém inesperado. Um padeiro, um juiz, uma maquinista de trem elétrico, uma dançarina de tango, tudo a partir da mais bela espontaneidade que este jardim assedia em nós.

Este Jardim, o da sereia, que fica nas laterais da minha imaginação, tem veias que se ramificam pra toda Coimbra dos amores. Essas veias nunca secam. E seu sangue inuda e invade nossas mentes e corações.

(Bruno Silva, abril de 2014)