Estamos certos de tudo nessa vida,
Certos da morte, do amor, das ideias.
Velejamos com destinos traçados, rotas demarcadas,
Desiludidos, empenhamos a esquivar-mo-nos da dores,
Das flores, do amores.
Pensamentos que se emboloram,
Pessoas não mudam,
Ideias mudam.
O amor, esse faminto estranho, é pouco.
Liberdade, essa senhora despudorada, é tudo.
Estamos certos de céu, de inferno.
Esperando algum bonde passar, pra pagarmos a passagem.
A passagem, o juizo final, o banquete...
E aí então, as flores e os amores.
Há céus sem pessoas.
Há pessoas sem mudanças.
Há amor sem ambos.
Indagados, estamos incertos de muitas coisas.
Todavia afirmando essas coisas com
Um aceno breve e ligeiro.
O amor, esse não existe,
E tudo que somos[existe] são passageiros...
(Bruno Silva)
Sem procrastinar o desassossego,
Dentro de corpos e desalmas.
Enxergadas a olhar míope,
A ilusão que consomem,
O beijo que evapora,
Os amores contraídos.
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Era apenas um dia sobreposto a outro. E no seu pensamento não havia nada novo. O mundo era tragável. E as centelhas da realidade eram como páginas lidas sem entusiasmo.
A noite chegara com toda sua costumeira solidão, embora seus olhos estivessem cheios de pessoas movimentando-se vagarosamente naquele jardim negro onde estava. A beleza quieta das flores noturnas saltava sobre seus olhos. Compactuado pelo frio, a noite o tornara perplexo. Gelidamente perplexo. Aquela sensação de frio transgredia a rotina de sua velha visita ao parque. Preocupou-se. Já fora do costume, desejou ser aquecido. Talvez fosse necessário suplicar a algum passante, a gentileza de um abraço. Ou, caso não produzisse coragem, devesse esquecer o desconhecido daquela situação, e costumar-se-ia ao sentimento de estar gelado por dentro, e agora, por fora. Divagou. E reparou nos transeuntes com a crueldade típica. Porém, temeu o que pensou. Viu uma velhinha, e temeu o que havia sentido.
A velhinha estava, tragicamente, solitária sobre o banco de madeira. Achegou-se próximo a senhora, de rosto deformado pela gravidade, e pediu com gentileza tosca para que lhe autorizasse sentar ao lado dela. A velha balançou a cabeça que sim com ar de arrependimento. Sua pele enrugada, suas mãos religiosamente sobre as pernas frágeis, comovia Antonio Mello. Talvez infeliz por ter alguém para aborrecê-la ou talvez compenetrada demais para esboçar qualquer reação definitiva. Mello, de repente, se viu na tentação de começar uma conversa com aquela senhora assombrada. Sentiu-se envergonhado por ter uma vontade audaciosa dessa. Porem falou, ainda sem jeito, que estava frio, rindo abestalhadamente. A senhora, dotada de um olhar estúpido, grunhiu como resposta. Respondeu como quem conta um segredo, ou melhor, como quem esconde um. Ambos se olharam insólitos.
Repreendeu-se, por alguns instantes, para ceifar as duvidas que lhe vinha a tona. Estava num estado precário de espírito. Carente do vulgo. Pouco vivo. Rangendo os dentes de frio, de horror, de medo, pudor. Desconcertado com aquela situação, Antonio quis ocupar-se com devaneios. Nesses devaneios, a senhora reclamava de sua dentadura, ele sorria afoito e suas indagações desciam ladeira abaixo. Confortou-se em pensamento. Não mais que de repente, investigou de fora e viu-se um belo rapaz – talvez executivo - trajando suéter preto, botas que não combinavam com as calças colegiais e uma expressão infertilizável. Ao seu lado, uma velha de casaco cinza – porque senhoras no frio usam cinza? – uma saia escurecida pela noite, de olhos azuis recatados. Antonio Mello, já com semblante pouco identificável na noite, saiu apressado. Não se entregou à frivolidade de seu desejo, vestiu um conhecido tédio, apanhou uma garrafa no seu bolso e bebeu aquele liquido doce com um sorriso espalhado. Tomava licor de cereja como se o exagero de sua ação o preenchesse. Sonegava exageros. E exagerava em sonegações...
Bruno Silva
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