Contraditoriedade Harmoniosa.

falsidade Em um determinado momento de silêncio, torno-me incompreendido. Há um caos instaurado que, nesse tempo, me ignora. Esnoba-me. Sacaneia-me. Ninguém mais consegue me ouvir, porque os ruídos parecem abafados. Estimulo meu som para que ele vibre numa freqüência mais ávida, afoita, escadalizante. Porém um pedaço desse ser que deseja agregar, harmonia e desorganização, linearidades e contraditoriedades. Esse filamento canhestro e desastrado que se quer dá conta de racionalizar as relações, que prefere o desconhecido, e é altamente vigoroso parece ter mais força nesse dado instante de mudez desafinada. Até que esse momento se interrompe com uma convulsão de pensamentos gentis. Que negam a equação de um ser indefinível. Aparento me restituir de sanidade. A clareza abandona o etéreo e começa a me cercar como num assalto de loucura. Como se a demência pudesse ser furtada. Vida medíocre restabelecida. Um pensamento alcoólico dentro da boca. Um cuspe infiel no chão. Volto a ser humano.

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Divagando…

 DSC00038-1 Eu preciso completar em mim um outro alguém…

Que me torne muito mais que um refém…

E que seja necessário consecutivos améns…

Pois todos os lados, cercado estou…

Por pessoas que dizem ser meu amor…

Mas no fundo querem me roubar o bem.
Bruno Silva

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Por dentro de mim.

olhar-blogpost Caminhando por caminhos impercorriveis de mim mesmo. Eu esbarro no que deveria ser e por tolerância ou covardia, não pude sê-lo. Por tolerância ou covardia é o que penso. Mas quem sabe eu não mereci, e agora fico me acusando na tentativa de culpar-me por quem sou. Talvez a culpa seja mesmo do mundo, ou do homem de botas na estrada, que andarilha prudentemente a passos contados e sem sobressaltos. Talvez a culpa seja das chagas que carrego e não negligencio em mostrá-las ao mundo, ou, em última hipótese seja daquele verme que esmaguei antes de começar essa caminhada. Não sei. Não sou amigável com vermes menores que eu. Costumo cercar-me deles, mas de tempos em tempos, em certo instante, minhas intolerâncias os espremem e eles correm afobados para algum lugar seguro. Nunca gostei mesmo de ser ambiente que respeitasse segurança, sem que me fosse arrancado as mãos ou as pernas. Precisando de membros, e por quase que uma vontade própria deles, eu lutava para manter a paz, por um bel prazer, admito. Quem me dera forjar uma fuga de mim mesmo para não sustentar mais garantias a outrem. Falo com a mesma esperança e vitalidade de um velho que espera a morte sentado, prostrado a olhar vida. Se não há melhor maneira de aguardar, porque não sentar e feito um observador, acarinhá-los com o meu mirar. Sou bom em examinar com olhos os choros da alma. Consigo desnudá-los, os próprios vermes, e arrancá-los toda a interpretação possível. Sou formidável nesse aspecto. E esse é o maior interesse que eles conseguem de mim. Os vejo com o anseio copioso de um faminto por pão. Os vejo para sustento próprio. Para sobreviver. Não admito precisar deles, já tenho dito, mas esses me dão prazeres ontológicos de sentar na janela. Caminhando por lugares intempestivos de meu ser, eu esbarro com minha intolerância vestido de noivo, aparentemente saudável e feliz, além de amável com todos os convidados. Entre brindes e punhados amargos de arroz, eu selo o meu casamento com o ser que depende de mim. E unidos aparentamos existir.

Bruno Silva

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Josefa: faces e contradições…

terapia

     Josefa estava recostada em sua cadeira suprema, quando teve a estúpida ideia de ligar para seu pai. Não por saudade própria. Nem por responsabilidade. E sim por um tipo de desejo induzido pela falta que sua mãe lhe fazia. Falar com seu pai, era a única dose prescrita de sentimento sincero e familiar, não o de seu pai, mas o de sua mãe sobrescrevendo a fala afoita daquele velho falido pelo álcool.

    Estava em seu escritório, onde amava desesperadamente seus clientes. Um vão construído após anos enfiada num curso de Psicologia, e muitos outros sendo funcionária pública num hospício, como auxiliar de psicoterapeuta. Era um santuário. Um lugar onde amava seus pacientes porque deveria amá-los. Porque sentira, a partir de um momento, a necessidade impiedosa de amar o que faz. E de fazê-lo com talento, empenho e presteza.

    As primeiras palavras do senhor que estava no outro lado da linha foram magoadas, insolentes e pegou-a desprevenida. Quem é você? Não sabia responder essa pergunta. Era canhestra em responder perguntas que parecia lhe desmontar em humana. Tentou silabar um “é sua querida filha, papai”. Porem preferira não mentir. Respondeu em voz baixa e franca, dotada de uma tristeza entremeada em suas palavras, disse que era sua filha mais velha, a que não ligava a muito tempo pela quantidade de seu árduo trabalho. Justificou-se amedrontada. Reconhecendo a voz, o pai, enrijeceu-se e deixou notar em seu tom cansado, algo insólito e ofensivo – já era tempo sua moleca, pensei que morrera junto com sua mãe. Faz um ano que tudo aconteceu. Eu estou danado ainda – falava com a urgência de um soluço. Dizia sem parar, sem pausar, sem folegar. Pretendia livrar a conversa de um ano, num assopro único. Era menos doloroso que tudo fosse dito em um minuto, e como quem resolve a fome, a ligação caísse, e o silêncio durasse por mais outro ano.

    Josefa terminou a ligação prometendo-lhe uma visita natalina. E enganando a si mesma, desligou a ligação com o falso pretexto de ter que atender um cliente. Mentira. Fizera com satisfação, para calar a sofreguidão de um velho abandonado por suas duas filhas. Um velho que distante era mais generoso e prestativo. Era isso que realmente sentia. Porém negou a si mesma a chance de se regenerar como humana. Preferia ser deusa de seus pacientes. A mulher que palpita, direciona, ama. A psicóloga. Pronta para curar as feridas dos outros com a vontade de esquecer as próprias chagas.

    Um silêncio entre o telefonema. Uma sala vazia e escurecida. Dois sofás que se olhavam. Um pensamento ausente. Uns dez minutos depois. Um paciente. Uma mulher vívida. Um ranger cuidadoso de porta. Um rapaz com problema de sociabilidade. Ufa, alguém para amar.

VOZ DO AUTOR:
a PROPOSTA agora é dar mais detalhes dos personagens. (Clique em Josefa e saiba mais dela)

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“Pode me dar um trocado, irmão?”

Influências

        1. “Laranja Mecânica”

laranja5         Retrata a violência sem objetivo dos jovens combatida pelo autoritarismo sem freios do Estado e faz um painel assustador da sociedade européia e do próprio mundo moderno.
        Alex (Malcolm McDowell, de Se... e A Marca da Pantera) faz parte de um grupo de adolescentes praticantes da ultraviolência. No início do filme é mostrada toda sua bestialidade, ao invadirem um lar e barbarizarem Frank Alexander (Patrick Magee, de Carruagens de Fogo e O Telefone) e sua mulher (Adrienne Corri, de O Circo dos Vampiros). 
         Quando Alex é preso, as autoridades lhe oferecem uma opção para escapar de longa sentença: submeter-se a um tratamento que lhe fará sentir insuportável aversão diante de qualquer cena ou ato violento. Por engano, a terapia acaba incutindo-lhe também repulsa à música de Beethoven, que adorava.
Alex é libertado, mas se tornou incapaz de reagir à brutalidade do seu ambiente. Isto faz dele uma vítima fácil não apenas das gangs, mas também da vingança de Frank Alexander, que jamais se conformou com os maus tratos sofridos por ele e a esposa. 
        Esse é um daqueles filme que te deixam pensando e pensando por semanas, até absorver tudo o que lhe foi mostrado na tela. Criticando a hipocrisia generalizada que toma conta da sociedade, Kubrick é sarcástico na medida certa, e nunca deixa o nível de "Laranja Mecânica" cair. O que temos aqui é a realidade, o retrato da nossa sociedade narcisista e fascista, com alguns toques exagerados (ou não?) que dão a conotação sarcástica ao filme.

         A frase do titulo faz lembrar a intolerância dos jovens à mendicância, uma fotografia que continua contemporânea. Indicado pelo amigo Rafael Brandt.
         Nota 8.

        2. “Em terapia”

        Um seriado onde temos a possibilidade de acompanhar 4 pacientes, nos mais diversos momentos da psicoterapia. Capitulo a capitulo somos presenteados com os mais diversos tipos de reações, insights, confrontos, e a utilização das mais variadas técnicas, passeando desde o uso do silêncio até interpretações bem freudianas. E é a partir destes que podemos fazer inferências e analisar as sessões de um ponto de vista privilegiado, na terceira pessoa.

       Temos então Laura (Melissa George), uma jovem que está em atendimento psicoterápico há 1 ano, recebendo a indicação de Paul através de seu namorado, Andrew, que também é psicólogo. Esta abre o seriado já em crise, em uma de suas sessões. A princípio a interpretação de Melissa George parece um pouco “forçada”, bem “dramatizada”, mas isso vai se tornando mais nítido ao longo da trama, como uma sintomatologia de um possível Hipótese Diagnostica (HD). Somos presenteados com muita dramatização, utilização exacerbada de linguagem corporal, simulações para obter contato físico, inconsistência de humor, e mais uma variedade de defesas. Ao longo do episódio, o que não é escondido na própria sinopse da série, estaremos nitidamente vendo um processo de transferência erótica, que Freud já escrevera sobre 1914 (Observações Sobre o Amor Transferencial). É então que Paul, ainda relutante com a revelação da paciente, percebe que está lidando com um ponto cego da própria análise, e se dá conta de que precisa retomar a sua própria análise.

Laura têm sua capacidade de ter insights totalmente restrita, mostrando estar totalmente absorvida por esse amor. É claro que, como profissional experiente, Paul jamais incentiva esse amor, com medo de produzir um “acting out”, mas ao mesmo tempo tem tato o suficiente para não repelir bruscamente, correndo um risco de abandono precoce da psicoterapia. Uma dosagem perfeita da técnica freudiana.

     Como Laura já está em atendimento há mais de um ano, podemos supor apenas que o contrato fora firmado, e Paul deixa claro os limites deste. Posteriormente Laura demonstra perfeita habilidade em realizar associações livres, deixando o caminho livre para Paul utilizar mais uma vez a técnica. Com os episódios iniciais, podemos inferir que estaremos presenciando uma paciente com estrutura Borderline (Bergeret) durante a psicoterapia.

      Ás terças-feiras temos Alex, paciente novo, que acompanharemos desde a primeira sessão. Logo no início já se pode perceber algumas fantasias comuns a pacientes, sobre a competência do profissional que irá auxilia-los. Porém, a fantasia de Alex já nós dá indicativos de altos traços narcisistas (inferência!!).

     Não está tão próximo assim do nosso trabalho na clínica, atender militares ou combatentes de guerra. Como nos EUA essa é uma temática recorrente, fazendo parte das questões sociais, não é de se estranhar que teremos aqui uma das conseqüências, a possibilidade de Transtorno de Estresse Pós-Traumático (TEPT).

     Um dos pontos fortes das sessões de Alex está no não questionamento de Paul sobre a realidade dos fatos narrados pelo paciente, por mais mirabolantes que eles sejam. Além do narcisismo exacerbado, temos também defesas típicas de uma possível estrutura paranóide. Suponhamos que seja um surto, Paul agiu corretamente ao “adentrar” este possível surto, não questionando a racionalidade do mesmo, pois isto seria precipitado e provavelmente afugentaria o paciente.

     Às Quartas-feiras temos Sophie (Mia Wasikowska), uma típica adolescente, relutante a terapia, que apesar de ter sido “obrigada” a participar dos atendimentos, começa a perceber que certas situações conflituosas podem ser resolvidas, gerando melhora na sua qualidade de vida.

     Ás Quintas-feiras temos Amy and Jake. Paul mostra mais uma de suas especialidades, ao auxiliar este jovem casal, com nítida falta de comunicação, em uma crise conjugal. Amy passou anos realizando tratamento para engravidar, e agora que conseguiu, pensa seriamente em realizar um aborto, pois o que aparentemente mantinha este casal unido era apenas o desejo de “engravidar”.

     E para finalizar a semana, conhecemos Gina, sua supervisora. São estas sessões que clarificarão melhor a técnica e onde Paul tentará levantar os pontos escuros em sua própria análise, na tentativa de obter supervisão para seus próprios pacientes. A relação entre Paul e Gina nos remota a situações clássicas na Psicanálise, onde mestre e analisando em formação tinham divergências teóricas.

   Referencias:

Webcine

Cinema Terapia

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Não sabia viver.

Bandido Amanheceu. A noite se foi. Se foi aliada à minha ilucidez. Partiu e carregou consigo o meu coração. Levou numa sacolinha amarela daquelas de mercado. Nem atreveu-se a escolher lugar melhor pra empurrar as tantas cartas minhas endereçadas a ela. Empurrou-as cheia de mágoas. Querendo rasgá-las mas temorosa por não prever o futuro. Como ela desejava prever o futuro. Se ela tivesse essa habilidade teria se poupado de me ver mais uma vez, com outra, na cama, na sua cama, na nossa cama. Teria economizado unhas na tentativa frustrada de arrancar, com a própria força, as frustrações, as decepções. Mas faltava-lhe mais que essa habilidade. Apesar de desejar viver e ter uma exata necessidade de fazê-lo. Não sabia viver. E não conseguia fazer nada sem saber. Nem mesmo um café. Nem mesmo uma falsa cara de surpreendida. Falhou quando nos viu na cama. Falhou quando tentou arruinar o rosto disperso da moça, estancar a saudade de nós dois, e esquecer-me após dois vasos quebrados. Não acertou em nada disso. E não aprendia a viver. Era burra para tal tarefa. Foi embora deixando os pedaços do jarro no chão, só o jarro.

Bruno Silva

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Sepulcro entre moedas.

subjetividade Hoje um pedaço dele morreu.
Faleceu junto com as cordas vocais eloquentes.
Num intervalo de pensamento,
Enquanto ele trocava o que tinha pelo que melhor transparecia.
Desocupou-no como um tirano sensato, num beijo de morte.

Tormenta, doce tormenta,
Disfarçada, encenada tão brilhantemente que ninguém observou.
Se quer notaram o falecimento daquele que fedia a algo bom,
Nem a tumba os justos olharam, os iníquos cercaram-no.

Agora, tarde, ele rebunga o túmulo na busca, nauseante de si,
Procura pelos destroços de sua subjetividade que lhe foi arrancada junto à vida.
Busca entre os ossos, os germes, e os aplausos.

Descobre.
Venderam-los, canalhas, transformaram em miúdos os restos dele.
Agora anda jogado a própria sorte, na mendicância do que lhe pertence.
Do que, não naturalmente, lhe foi retirado. Voluntariamente.

Na mendicância de um discurso que o caiba,
Na catarse fajuta de quem se prostrou ao nada,
Já arruinado, inerte numa cova, sua opinião parece vagar aquém de ouvidos
Aparenta um capricho mortalizado, enterrado por suas prioridades.

Parece que parte de si:
Era sonho mal determinado de um embevecido,
Uma fantasia de quem finge dormir, imóvel,
Mas que não pretende despertar antes dos trocados.

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Um jantar.


No jantar havia sopa de aspargo e suco de beterraba. Os três componentes daquela família comiam, ao redor da mesa, com o mesmo prazer que se olhavam. Engoliam as colheradas com o temor fiel de um doente. Entreolhavam-se enquanto suas bocas cheias eram a falsa desculpa para o silêncio que fora costurado ante a mesa espaçada e insoça. O filho até tentou, enquanto rejeitava as verduras, falar sobre suas notas já melhoradas, mas sua mãe mal lhe dera a confiança de um olhar, estava ocupada demais com o erotismo de seus pensamentos. E o pai, mal o ouvira, pois decidia, bem ali ausente na mesa, o destino de seus negócios, inapropriadamente e com a indecência de um pai ocupado. O filho rosnava. A mãe pervertia. O pai desdenhava. A família engolia-se.
Bruno Silva

* Imagem meramente ilustrativa.
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Ouvir por ouvir

drummond2 Já dizia Nelson Rodriguez que a qualidade de um bom ouvinte é bela, eficaz e rara. Ele tão somente acreditava não haver prósperos ouvidos que se apliquem integralmente em minutos de sua função. Em despeito a ele, nasci. Nasci de orelhas grandes, ávidas, afinadas. De orelhas que de acordo a lei de Lamarck, se desenvolveram ao favor de sua utilização (uso e desuso). De pirraça, peguei gosto pela coisa. E agora não consigo ver uma prosa padecendo de ouvido – o que me faz recordar fatos inusitados de um ouvinte no meio do centro – que pulso em ligeira sintonia ao som ecoado. Eu gosto de ouvir, caro Nelson. Mesmo quando insalúbre, intolerante, arruinado… Eu não só ouço, mas me entrego totalmente à silábica fluência do caso.

Não é uma habilidade de fácil cumprimento, admito. Mas o sabor diante as palavras avulsas, desentoadas, que sonam audíveis… e o que elas me somam, subtraem, falecem, erguem – com perdão do trocadilho - soam igualmente ao orgasmo da fala.

O que me faz pensar no ato de ouvir são duas funções que apesar de distante delas, admiro e valorizo. Uma é o ordenhoso trabalho de um psicalista (que conheci a partir da série EM TERAPIA a qual vejo); a outra é o dadivoso jeito que os pastores, padres… Ouvem, interpretam e tentam – com o risco de não conseguir – ajudar. Não é um prazer unilateral de apenas quem fala, resmunga, confessa. Não, vai além. O deleite está no próprio acesso doado, na experiência adquirida, e no fascínio que esses – como eu – sustenta pelo ouvir.

É inegável que há momentos que o próprio som de nossa voz, nos incomoda ou atormenta. Mas é irrelevante… perante ao cargo que o bom ouvinte exerce. O bom ouvinte é o antigo oráculo que além de ouvir os resmungos, ainda aconselha, direciona. Claro que o poder de ouvir deve-se vim com o tempo, e sobretudo com uma carga emocional mais sensata e hospiciosa. E também não se deve jogar materias pútridos num ambiente agradável… pois corre-se o risco de perder toda a afabilidade do lugar. Porém, mesmo com os subtefúrgios do cargo, o bom lugar é bem requisitado, satisfeito e cheio de felicidade. Seria muita audácia dizer que a felicidade perene vem daê, do bom escutar? Salvo da vaidade, estou crédulo de que a desvirtude do ouvir está no despojamento com  que se ouve qualquer um, sem temor do que será dito. Ou seja, ouve-se o inimigo igualmente ao aliado, por conta da sensatez adquirida no processo. Contanto a temperança está no ato gratuito de configurar-se no lugar do outro (empatia) a ponto de querer ouvir pelo ávido e incessante desejo de dizer, de clamar, espantando o próprio ego, negando-lhe saliva.

Simplesmente, desafio-o a deixar o ouvir por ouvir, na demagogia fajuta, para se atentar ao outro. Sufocando seu ego. Quero lhe oferecer essa proposta, sem previsibilidade de um retorno. De um agrado. De um pirulito ao voltar do mercado. Anseio para que percebas a medida das coisas dentro de uma conversa, de um envolvimento relacional sincero e íntegro.

Desafio-o a ouvir mais essa semana, não as palavras torpes. Mas talvez ao clamor ínfimo daquele cujo valor é pequeno ao seus olhos.

Como quem aguarda o bonde, espero que isso impere sobre sua vida. Para que a crapulice humana (que também me alimenta) seja destoada de sua magnitude, e desvaia sob seu ser. É gostoso!

Bruno Silva

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Tempo que não volta e nem sente.

ferias3  Tenho saudades de um tempo que ficou pregado nas paredes do colégio. Um tempo de muitas palavras sem nexo. De nada baseado em nada. Onde tudo era uma poesia mal interpretada. Saudades daquele vento que carregava junto ao seu corpo meu humor, meu amor e minhas infantilidades. Sinto falta do medo e da desconfiança que antecedia o beijo. Da grande resistência ao diferente. Sinto falta do diferente: da menina de aparelhos nos dentes e míope, que me abria um sorriso encantador. Da minha reação pouco dissimulada, que aparentava logo um medo, e que mais tarde ia aceitando aos poucos, naturalmente. Sinto a ausência da vitalidade que escorria junto com o sorvete tomado as pressas clandestinamente. Saudade do proibido desejo. Aquele que me motivava a furtar ligeiramente o livro grosso que a professora sempre carregava rente ao peito, não sabendo o que olhar primeiro eu via algo como “livro do professor”, na capa, fechava o livro, obediente, e corria para devolver numa feroz inocência. Sinto saudade desse tempo que nem volta, nem pensa, nem sente.

Bruno Silva.

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Eu, ela e a felicidade.

mamae

Minha mãe viajava para buscar o futuro. E eu engolia a seco aquela vontade de dizê-la o quanto os seus biscoitinhos de goma faziam falta quando ela não estava. Começamos essa vida de despedidas muito cedo. Lembro que por volta dos meus seis anos eu chorava descontroladamente para tê-la sempre perto de mim. Era uma angústia seguida de um vazio que arrancava meu sentido de vida. Eu percebia uma ordenação de suas bagagens, e inconscientemente, já me agoniava e não mais me afastava de debaixo de sua saia. Era uma melancolia precedida de um aperto socado no peito. Uma vontade de morrer pra vingá-la a dor que eu sentia. A primeira partida fora numa segunda sem graça. Estava nublado dentro de mim, igualmente sem graça e meu interior fechava-se para qualquer maturidade. Ela avisou-me antecipado e inutilmente que viajaria para buscar nossa felicidade. E eu questionei a ela o porquê nós não simplesmente esperávamos a nossa felicidade vir, feito o homem do leite ou a moça da costura. Bastaria apenas que dormíssemos e na manhã cedinho, lá estaria ela enrolado num saco marrom, cheirando a – inevitável – leite fresco. Ou senão ligávamos para ela, numa inocência desesperada, e a iludíamos prometendo-lhe um saco de doces, decerto ela viria – até eu viria, mamãe! Foi aí que ela me olhou fascinada. Frustradamente fascinada, dirigiu suas mãos trêmulas de mãe que precisa mentir para o bem, e disse que a felicidade faz pouco da gente. Ela falava num tom desanimado, numa voz cortante, aguçada, forçosa. A felicidade não nos quer companhia e jamais iria vir sem que a bajulasse. Dizia necessária a viagem, que eu ficaria bem. Eu era grande suficiente para aquilo. Delegando-me uma maturidade, uma aceitação... Que eu - que eu - nem sabia negar. Mas não quis chorar de novo. Falsamente convencido, deitei sobre seu colo e prometi que se ela trouxesse a felicidade, se ela voltasse rápido dispondo da felicidade nos braços, eu jurava nunca deixá-la fugir de nós. Trancaria a felicidade em mim. Eu e ela jamais estaríamos desacompanhados: Eu, ela e a felicidade.

Bruno Silva

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Réplica ao morimbundo.

delirioscotidianoscapaooooVocê tem cigarros suficientes para uma conversa entorpecente, meu caro? É fato que vivemos num grande delírio. Uma fantasia que muitos banham às ideias dogmáticas de uma religião qualquer ou a muitos tragos de uma bebida alcoólica. Mas sabemos, querido, que não é apenas disso que tratamos. Não sejamos ingênuo a pensar que travamos (des)graciosos diálogos defendendo essa ou àquela crença. Ou que um de nós dois tem o objetivo irritante de um sofista beberrão que discurssa em nome de uma mediocridade. Nos salve, meu amigo, do mal senso e do ridiculo que se aproxima… Pois já encobre-se sobre seu texto-vomitado uma ofensa cruel e indolente. Já receio que você acredite mesmo no que cospe. Já teimo que você, ao apagar das luzes citadinas, no apogeu de vossa prudência, tenha que se exorcizar de sí mesmo. Porque ninguém resisti tanto ao que lhe é de natureza essencial. Danosamente essencial. De fato, ainda não somos o nosso melhor ser. E temos muito a (des) construir. Porém, redundante e irônico é negar Alguém que lhe é intricado, familiar, fundamental. Claro que ainda há mágoas e resignação e escárnio de sua parte para com ele… No entanto, és apostata do que tanto amou (?)… És a ilusão frutrada de quem tanto O devotou (?)… Ou és aparência do que gostaria de ser… Mas que sofridamente, não consegue sê-lo (?)… Ainda não há defesa, nem justificação. Ainda não há um lexico juridicamente ordinário. Ainda não há, se quer, um desejo violento de convencê-lo. Mas há emoção. Há fé. E onde há fé, meu precioso amigo, não há temor, culpa, medo… Há sim a enormidade da figura de Deus. Isso há. (Não esqueça de comprar mais cigarros).

Bruno Silva.

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Resposta ao pilecado.

charles Anestesiado, entediado com uma vidinha michuruca que acaba num trago. Uma lúcida vontade de morrer no meio da bebedeira, do cigarro redundante, do sexo fastidioso. Finalizar-se em qualquer lugar que omita a sua existência. Lhe é desagradável saber sobre seu não-eu. É desprazível acreditar em algo que vá além de sí, de suas ânsias, de seus prazeres. É melhor mentir um amor, mentir num decreto safado. É interessante fingir um ânimo, entusiasmar uma festa, sorver uma fantasia, alimentar o cochonete que se instalou em sua mente, onde todos, desnudos, copulam com seus neurônios. Fodem-lhes em todos os sentidos e ambiguidades. Num se interrompe para pensar. Não pretende pensar no nada que o desagrada, que é Soberano, que é Deus de seus medos. Prefere ajeitar o colarinho, enfileirar os cabelos, acentuar os olhos enganosos. Apertá-los contra a luz. Apertá-los contra a sagacidade. E usá-los para dissuadir um prazer ocasional, parco e num jato satisfazer-se. Um jato que já não mais o despreenche. Porque ele está desocupado do que antes era-lhe virtude. Não mais prorroga seu dicernimento. Age.Toma um gole do que lhe sustenta. Vomita. Engole o próprio vomito na intenção de não se perder nele. Embebeda-se. E cai prosternado perto do banheiro, vomitado, morto. Com muitos olhos investigando-o. Espancando-o.

Bruno Silva

: Resposta a esse post:

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Desiludido?

esperm E a incerteza já vai corroendo e me acometendo numa abrupta e violenta força. Como de costume, as minhas pernas bamboleiam descuidosas. Novos conhecimentos recrutam e apodera-se de muitos neurônios. Bate um receio de aceitar algumas sapiências e esquecer das premissas de minha personalidade. Mas quem se importa em tê-la única, inexplorada, intacta? Os tolos fundamentalistas. Tudo ocorre numa enorme dinâmica. Uma agonia saudável vai estagiando as ideias antigas, fazendo-as trabalhar a contragosto. Deus está intocado. Deus será intocável. As crendices não. Toma-me uma indignação de ter sido enganado por muitos, massacrado por tanta gente, de tantos lados e esgotos que só souberam estagnar o meu pensar. A faculdade serve para isso. Pra esfregar em nossas caras o quanto fomos inutilizados. Uma semana na universidade. E eu já lembro de cada fraude, cada palavra que exalava uma fedentina essência de hipocrisia. Parece que caiu-se o vel. Algo foi transgredido, desvirginado. Agora o que fazer daquilo tudo? O imaculado ora por luzes. Ora por não precisar vingar-se. E espera, Oh grande Deus, um lampejo, um raio de lucidez. Pois até lá não fará nada. Nada.

Bruno.

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