Não me despeço eu sei porquê
Disperso em mim, está você.
Tanto amor você deixou espalhado
Dentro das mucosas venenosas da poesia;
Seu doce tóxico verso que me abala o coração,
Que não deixa meus olhos mentirem a cor,
Não pode ser negro. Não pode ser luto.
Não sei estar negro perante tua ausência,
Mesmo porque nunca foi negra a tua presença.

Reparo os brancos cabelos e tua alma tão branca,
Como uma nuvem abraçando-te em um doce dezembro;
E não vejo dor nenhuma, só um prazer, que ora é salgado,
De ter tropeçado em suas palavras,
De ter sido jogado no ventre de teus versos,
No limbo de tua eterna e juvenil doçura.
Desculpa, não me despeço. Não sei dizer.
Disperso em mim, está você.

Bruno Silva

Habitar as palavras é vulcanizar sensibilidades


Partir me parece agora uma palavra que deriva de "parto" ou "dor". Estou reorganizando as palavras em seus tristes sentidos, depois de fazer chover o português lusitano em meu varal de português latino-americano. Procuro despir a semântica do meu desejo em permanecer em Portugal até secar as palavras. Coimbra é uma tocha ardente dentro de mim. Fico recolhendo retalhos de quem eu era antes de acariciar os poros das derradeiras palavras, repronunciadas com a boca cerrada. Sinto-me um menino que ligeiramente se esqueceu a mecânica de andar e agora procura alisar o chão como recomeço. Retomba sobre mim a força bruta de recriar meus passos, e sem ter chãos para pisar ou palavras familiares para saborear, me sinto ilhado, como um descobridor de velhas terras. Todas as palavras me parecem suplicas infantis ou dogmas revisitados. Meus pés se enraízam em Coimbra como as raízes de uma arvore penetrada no Jardim Botânico, o joelho sensual da Praça da República. A minha fé pagã, que não é cega, refloresta meu culto ao presente, embora o passado me pareça um bom altar. Partir, que é verbo atuante, sussurra e assopra no relicário de sentimentalidades do meu pesar. Otimista, flerto com o tempo. Sinto no soar do horizonte a charmosa curva que oculta um oceano de novas palavras, envolvidas em novos sentidos. E diante disto, saudade é palavra gasta. Denuncio meu culto ao agora. Só me resta o novo.







Apanhei a caneta das calças
E pensava em ti quando
Escrevi poemas
líquidos, sórdidos, pastosos.

O rijo objeto em minhas mãos,
A deixar rastros de uma tinta embranquecida
Viscosa e úmida,
Salivante.

E alimentando-te de poesia, doce e inodora
Afogavas na boca o falo das palavras
Armadas e em estado de atenção.

A tensão fiel da folha em branco,
Desnudando o prazer de te ter na minha
Boca,
Aturdida,
Com porosas sensações.

Escrevo um poema,
Da página e do chuveiro,
Oro e rogo ao dilema:
Se deixo guardado o que falo
Ou se permito escorrer pelo ralo.

(Bruno Silva, maio de 2014)



Oração em Silêncio


Fui a um templo
Procurar paz,
Mas eles gritavam tanto
Pra Deus ouvir,
Que não havia espaço
Para sentir mais nada,
nem Deus, nem os ouvidos.

(março de 2014)



A Beleza e a Dor

Palavras bonitas. Eu já as conheço de longa data. Fui criado com elas. Fui crescendo ouvindo o tambor de suas surdas vozes tilintintar nos meus ouvidos. O estampido de seus interesses reais, sim, me apavora. Enquanto o discurso é montado e em cima do palanque o enfático e doce interlocutor expõe as tais palavras bonitas, minha razão chora. E por diversos motivos. A nefasta lógica por detrás daquelas palavras que soam belas e aprazíveis. O engenho precário e falacioso delas. O amor exposto como carne em açougue local. O perdão devassado. A solidariedade prostituída. Aquelas leis, mortas e sagradas, fortemente induzidas e manipuladas pelos sentimentos inferiores do mundo. Palavras bonitas. Eu já as conheço de tempos distantes. Se alguma vez elas me tocaram à alma, o fizeram não por merecimento, mas pela intensa ingenuidade dos anos que precede a maturidade. Entretanto, é bem certo, estas palavras moralmente ambíguas que me atingiram, jamais aplacaram a minha mais íntima dor. A dor diante da existência e da racionalidade perversa que pode haver na beleza. E a beleza, perante minha dor, não é nada.

Bruno Silva