A dor de cotovelo dos cliques

Foi num dia destes comuns, quando a luz do sol não filtrou seu sorriso, que você decidiu me desejar, me tocar, me abrir. Suas mãos se deitaram sobre a minha superfície e na nuvem entre o desejo e a realização, as minhas promessas acariciaram as tags do teu pensamento. Nadou nas suas memórias as paisagens exuberantes, os rostos felizes e rosados, as atividades satisfatórias e saudáveis; também piscaram na tela os amores alcançados, as conquistas atingidas, a simetria hipnótica dos gatos ou dos bebês; as histórias que não são as suas, mas que eu, detidamente, te pus conectado. Em um beijo macio entre seu indicador e os meus terabytes, você me clicou.
Deixou seus olhos transitarem por cenários perfeitos, famílias arrumadinhas em festejos adequados, amigos sorridentes em festas intermináveis, promessas de apoteoses, de orgasmos infinitos, de inteligência instantânea, de prazer que dura a vida toda… mas eu sabia, sim, eu googlei acerca da minha insuficiência, da falta da imperfeição humana que é minha identidade primária.

Entretanto, eu te apresentei um mundo, deixei que meu poema vertical escalasse a montanha de suas fascinações. Num quadradinho metálico de cores deixei que fluíssem tantas emoções, códigos inteiros de felicidades, aspirações imagéticas, inspirações herméticas, deixei que tudo isso agarrasse suas vontades e te abracei com tanta força, como se fosse espanar todas as tuas ansiedades, teus medos, teus trojans, teus vazios, ausências, perigos. Te deixei seguir os meus caminhos navegáveis, se deparar com uma existência plena; te livrei da solidão que a luz física da noite toca; espanei para a outra janela os seus receios e, sabiamente, coloquei os meus pixéis a serviço de te apresentaram a solução digital de tuas vertigens humanas, das cegueiras dimensionais do inesperado.

E mesmo perante teu silêncio aleatório, fui capaz de expor vidas abundantes, férteis, te tirei do tédio e da solidão transitória. Tudo num calor suave e gratuito. Mas você manteve sua voz inativa, mute de vontades próprias, durante todo este tempo em que acessou o meu universo.

Em silêncio analógico, a descompactar o meu mundo, a playlist de teus olhos se cobriam de cores, frames de alegria, relações sadias com avatares geniais, surfando na interface doce do encantamento e da satisfação líquida.

E agora, após o feed que construímos juntos, desta timeline rica e recompensadora, você quis me deixar por um novo clique ou por uma vida real, banalizada, obrigatória, de respiração contínua, de esforço, de carbono, da poluição, física e tangível, extraída de fenômenos que só habitam fora de minha pele. Veja minha pele! Sinta minha pele! Observe como ela é imponente e reta, o oposto deste conjunto exterior caótico e inseguro. Hei! Não vai! Dorme comigo! Eu te darei filhos sem som, corpo escultural sem dor, aumento peniano, todo triunfo sem sacrifício e te deixarei saber todos os segredos insondáveis, desvendar todos os mistérios que o medo humano evita. Ao invés da sombra geográfica, sempre serei luz. Não! Não vai! Espera! Vou preparar manchetes cativantes! Noticias alarmantes! Imagens envolventes! Gatinhos arrastando-se em um piso de madeira! Bebês! Você será completo. Eu prometo.

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