Que saudade!

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      Depositou o corpo sobre a cama. E depois de meia hora de pensamentos, certificou que a madrugada se ia alongar como de costumes às noites que precedem encontros tão esperados quanto o dele e o dela.
      Roteirizou todo o encontro, imaginou as posições dos envolvidos, escolheu os tópicos de conversa, ensaiou o riso amolado, empenhou-se na tarefa de parecer agradável, solta e independente.
      Ele, enquanto isso, estava dormindo o sono tranquilo e límpido. Sonhava com belos passos de dança, conduzidos pelos corpos chamuscados em voga que se encontrariam logo mais no alvorecer em uma praça citadina. Os bancos de praça acinzentados em fileira, as flores vívidas e exalando o seu melhor aroma, os passarinhos ressabiando suas canções que musicariam os passos e guiariam as tantas mãos e pés que se beijavam numa dança lenta à beira do lago, sublimes.
      Estava ela no deserto de sua madrugada. Ansiosa, insegura, pensando consigo “será que ele vai notar minhas unhas cinza em razão de nossas tantas conversas sobre as cores que homenageiam a solidão?” e muitas outras perguntas vieram à tona sem qualquer sinal de respostas. E por não tê-las sentia-se ainda mais escura e mergulhada no azul marinho de sua vagueza.
      Ele, por sua vez, acordou no meio da madrugada, entre espanto e lamúria, para tomar um copo de água. Próximo da porta viu um espelho e um rapaz dentro dele, perplexo, sonolento, embora perceptivelmente obtuso. Escorregou as mãos sobre o queixo como se pudesse afiná-lo, encheu o pulmão de ar, estalou os ombros e de repente, enrubesceu o pobre rapaz que achava-se franzino.
      Já desistindo do sono e alagada de duvidas, recorreu à caixa de cartas para se aprofundar nos modos como ele lidava com as palavras. Buscou cada sujeito, interjeição e os tantos “ah!”, em sinal de veemente desistência e cansaço da ideia percorrida. Fatalista, pensou: “Ele é inócuo” e riu da palavra repetindo três vezes: inócuo inócuo inócuo. Soluçava e ria e proferiu as três palavras sustentando-se da reação que ela produzia. Inócuo, puramente inócuo, seguramente inócuo, apenas inócuo. Passado cinco minutos de torpezas mentais, interrogou-se: “E o que é inócuo, fulana?”, descobriu-se burra desse significado. Inventou sentidos, desmontou a palavra, ainda assim não teve certeza do que seria inócuo. Paralisada e vencida, de sobressalto pressentiu a imagem mental dela dizendo na cara dele, impetuosamente: “Você é inócuo, cicrano” e ele aprumando-se ainda mais sua elegância entendendo inócuo como elogio, “obrigado obrigado”, o que devidamente não era o esperado. Sentiu-se uma mulher irresponsável e grunhiu silaba por silaba a palavra inócuo em direção à parede de cor vermelha escarlate que ria para ela sem qualquer condescendência.
      Duas horas depois e era o dia seguinte.
      Ela acordou entre trilhas de espanto, abismos e poesias. Ele despertou cheio de camadas. Solitários de seus quartos foram invadidos pela vontade de ser rever logo, se abraçar logo, vorazmente e acabar toda aquela agitação.
      As sete em ponto, numa praça qualquer da Bahia cuja lateral ostentava um lago azul misterioso de águas florais, os dois se viram de longe como figurinhas nanicas de um álbum e não demorou para compartilharem um abraço, um “olá” recatado e preguiçoso e pronto: todo roteiro despencou do alto do imaginário para dar lugar a uma conversa boba, úmida e sincera sobre a singularidade de cada flor, o cisne branco repousado nas águas geladas do lago e o próprio lago resplandecente que reproduzia tudo quanto se aproximava dele.
      Disseram a palavra amizade 33 vezes, amor foi dito dezoito vezes, por sua vez olhos e sorrisos foram ditas 8 vezes cada uma, Lispector foi dita uma vez por ela: enquanto recitava a poesia comedidamente; absurdo foi empregado 2 vezes por ele quando ironizou os traços franceses incompatíveis com as palavras encardidas que por vezes ela aplicava. Paixão foi dita 2 vezes, uma por ele e uma por ela, com muita simplicidade. Estrago foi dita 1 vez por ela quando sinalizava que a falta dele tinha feito estrago, e quis rimar, ousada, com espasmo que era na verdade a reação com a qual ela se identificava perante a ausência dele.
      Na ânsia de se conhecerem mais e entre relatos e trejeitos, ele não desgrudou seu olhar dela que, por sua vez, quis imitá-lo: o garoto com os olhos repletos de melanina esfomeadas a observar cada célula que compõe aquele corpo de mulher. Ela, notadamente com os olhos marejados, ralos e um sorriso incansável, tanto que sua boca parecia ter aquele formato infinito do riso que tal qual o ensaio, fora perfeito. Ambos, felizes e descobrindo que a felicidade não podia ser ensaiada, disseram fulminamente, “que saudade!”.

3 comentários:

garoto cientista disse...

Menino, e a primeira edição, sai quando? Adorei o texto, repleto de detalhes, desejos, sentimentos, muito bom. Uma ótima semana.

Danilo Moreira disse...

Olá Bruno, como vai? Desculpe pelo sumiço, mas agora estou de volta por aqui.

Quanto ao post, de fato, quando há saudade, amor e sinceridade, tudo é imprevisivel. Mas também, é mais gostoso rsrs

Parabéns pelo post!!

Abçs!!

Danilo Moreira

http://blogpontotres.blogspot.com/

Camila Monteiro disse...

Lindo como sempre! Um refresco para a alma!!
Otima segunda! beijos