O esquecimento do tédio

fazenda-4332Como se não pudesse rir nem chorar, Antonio acordou naquele dia ameno. Era domingo de véspera de Natal. E não seria fácil tragar aquele dia sem o consolo da ausência de seus vícios. Os passarinhos da fazenda cantavam uma melodia cansativa e afinada daquelas de desatinar qualquer juízo. O ritmo ressoava por todo o corpo recém acordado de Antonio de Mello e isso determinava que era momento de despertar para o dia que mal se inicia, mas já se acaba na falta de vícios. Seu vicio era o tédio, a monotonia, a descrença de si mesmo. Qualquer coisa lhe esgotava os gestos e as forças físicas. Seus pensamentos iam e voltavam numa dor assombrosa. Não conseguia, naquele relento dia anterior ao feriado natalino, se quer, acordar com a paz dos que levantam sedentos de vida em plena aurora.

Acostumou-se a ideia fácil de que seu dia estava terminado naquele mesmo instante que começara. Iria enganar-se o dia todo, acreditando que aquele era o dia antecedente à segunda-feira, porém nunca o chamaria de domingo para não lembrar-se do nostálgico rito dominical pré-natalino. Apenas um dia grávido de outro. Uivou, de repente, sem dó num sobressalto. Wake Up Antonio de Mello, o dia lhe aguarda com ansioso rancor, disse sem entonação. Repetiu essa frase com veemência e varias vezes, e tantas vezes que seus lábios perderam os sons das palavras e apenas emitiam um som resmungado e desproporcional.

Recostado no tédio e detento de sua distração matinal, Antonio fez suas atividades domesticas tal qual limpar os canteiros e dar de comer às galinhas até que parou, cansado, para lavar o seu rosto no torneirão fora de sua casa. Enquanto envolvia seu rosto na poça que suas mãos formavam, sentiu uma tremenda angustia de não estar esfregando a própria face com prazer. E sim como um peso, ou representação de uma coisa perdedora, falsa e entediada.

Riu, falaciosamente, para guardar o pensamento em segredo. Viu-se esmagado pelo sorriso que não cessava nem lhe parecia sincero. Ria obcecadamente para disfarçar a melodia cansativa dos pássaros. E às gargalhadas, começou a gesticular todos os membros possíveis para iniciar uma dança estranha e solitária. Ria e dançava como se aquilo não fosse parte de seus dias comuns, o que fazia daquele antecedente de segunda, um dia especial e não monótono. Em passadas agressivas e risadas canhestras, viveu com a intensidade aquele momento de prazer lânguido. O esquecimento lhe sucumbiu o tédio. O esquecimento lhe sucumbia tudo e tornava seus dias menos monótonos. O esquecimento era o seu segredo e seu sucesso.

Till There Was You - The Beatles

 

4 comentários:

Graziela Sá disse...

Por acaso,o nome Antonio, vem de algum ser estimado teu?? Adoras esse nome,rs.
Eu gostei muito da narrativa,apesar de ser pega pelo tédio ao terminá-lo,tsc!
Em relação a musica,eu só conheci a versão em português dela,cantada pela Simoni.Eu não sabia que a canção era dos Beatles kkkk.PASMEEEI!!
Gostei! Me fez lembrar as festas natalinas – luzes,cores e alegrias

Bruno Silva disse...

Grazi:
Na verdade Antonio de Mello foi uma escolha que fiz para um personagem q já tinha construido a muito tempo, mas que resolvi nomeá-lo após ter lido Pergunte ao Pó. Liminarmente, sei q um dos personagens desse livro chama-se Arturo Bandini e talvez dele venha a inicial "A", mas o restante foi puro espontâneidade. E qualquer intrepretação além do nome, pode ser, no máximo, subliminarmente. Só!

Mas desimporta o nome, o importante não é o nome é o personagem q aprecio.

Danilo Moreira disse...

Que irônico... para sair do tédio, Antonio se lembrou do esquecimento...rsrs Adorei!!

também fiquei surpreso ao descobrir que aquela musica da Simony é uma regravação de uma música dos Beatles. Realmente ela só regrava coisa dos outros.

Um abraço!!!

http://blogpontotres.blogspot.com/
Tempo, tempo...

Guilherme Lombardi disse...

A Simony é a maior estragadora de música que já vi! E hoje estou vivendo um dia de tédio