Antonio de Mello e os galhos murchos

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    Qualquer um capaz de distinguir a loucura da lucidez saberia dizer a quantos passos Antonio estava da qualidade de ser louco. Eram poucos, constato. E essa distância diminuía vagarosamente no ritmo constante, feito a brisa que suspende a barra do tecido pesado. Mesmo que demore mais um pouco e ainda tenha Antonio ocupações que prorroguem seus dias de clareza, perceber-se-ia, embora, a qualquer instante o pedaço de pano acolhendo o desejo do vento e arreganhando-se à insanidade de seus rumos.

    “Consumado”, dizia ele sobre o próprio destino. “Pois o homem raramente escapa do seu destino”, completava, invariavelmente determinista. Não há mais como intervir na luxuria qual tomaria sua vida. Luxuria de pensamentos. Suas afeições se rendiam aos encantos da demência. “O amor torna-nos louco”, afirmava repetidamente. Agora que soube porque amava aquela garota, parecia não mais existir algum nexo em continuar prestando a ela tamanho sentimento. Não. Queria agora voltar aos tantos tragos em que estava acostumado antes de Mariana entrar em sua vida e tomar de assalto toda sua insanidade, lá nos recônditos do seu pequeno passado de poeta delirante. Desejava, pobre de Antonio, o saldo de tantas noites renegadas ao prazer e tão oferecidas ao amor e aos seus apelos passionais. Suas noites estavam, marcadamente, irrealizadas no beco de suas memórias. Fosse o que fosse, achou que não tinha vivido todos aqueles anos que teve a disposição. E cada minuto que se avançava, tinha a certeira impressão de estar investindo no tédio, na mesmice, na decadência. Precisava se recuperar da fantasiosa trama de amor a qual estava submetido e embrulhado e torcia, mas torcia muito, para que a vida lhe retribuísse com os adornos venturosos da juventude desfrutável. No frio de seu quarto, esfregava os pés insensíveis e pálidos contra o tapete na intenção de roubar o calor necessário. Conhecia a estrutura de sua tentativa de produzir calor. Amava para sentir calor, e esfregava os pés, incansavelmente, com a mesma finalidade.

    Passaram-se algumas horas entremeadas de pensamentos convulsos e pés artificialmente aquecidos. Amanheceu dentro e fora de Antonio de Mello. A luz da certeza era uma apetitosa refeição cujo proveito lhe traria os próximos passos de sua jornada sob os raios de sol da manhã calmosa. Arriscou alguns passos em direção da varanda. Avistou, ainda sonolento, a varanda convidativa: a mesa posta e a porta aberta. Seu velho pai, que de tão velho não sabia distinguir as intemperanças de seu único filho homem, havia proporcionado aquele banquete vário e generoso.

    Por um momento, enquanto revia a fotografia de seu pai no porta-retrato fixado na parede amarelada, e percebia que a casa estava completamente desaquecida pela ausência de seu progenitor, pensou, com os olhos lacrimosos, “ele deve ter ido colher o café”. E ainda pensante, envergou-se para olhar pela janela da cozinha e enxergou uma varanda repleta de sombras. Seu pai lá ao longe, o céu levemente nublado, galhos murchos e concluiu que nem os dias, conhecidos por sua iluminação, têm a obrigação de serem tão claros. Furtou-se, rapidamente, desviando-se de qualquer mancha de ideia ou escolha. Naquele momento ao passo que aguardava seu velho pai, desejava apenas que seus dias de insanidade não interrompessem o afeto que seu pai ofertava ao seu filho. E que alcançaria, seguramente, a eternidade genuína da qual sua história era apenas um trecho. Dessa eternidade, dessa mesma eternidade comungava a contagem de seus vacilos mentais.

As Rosas Não Falam – Vanessa da Mata

Recomendo o video: atente-se ao trecho dos 2:40.
http://www.youtube.com/watch?v=XYUOQDlZnTQ

4 comentários:

Pobre esponja disse...

É verdade, belo tratado a respeito da lucidez e da loucura, cujo fio é tênue.
Continue assim.

abç
Pobre Esponja

Pobre esponja disse...

É verdade, belo tratado a respeito da lucidez e da loucura, cujo fio é tênue.
Continue assim.

abç
Pobre Esponja

Vc curte rock? disse...

O conto é ótimo cara, mas a música arrebentou.

Show de bola

Forlly disse...

Meu Deus.
Certo, me sinto sortuda por seu blog estar acima de mim naquele topico. Amei cada linha do texto. O BG do seu blog. Talvez, tenha gostado tanto do que li por amar falar, ler, saber e discursar sobre a insanidade.