Qualquer outra frase que não seja ‘te amo’ novamente.

carta

Para Graice: palavras que desejam a finitude.

É engraçado como as coisas acontecem de um jeito que não podemos prever. É engraçado, fascinante e talvez triste. Há minutos atrás éramos raros conhecidos que se frequentavam pouco. De repente tudo ganhou uma proporção: sua voz fina e insegura ganhou agudez, e lentamente, construímos o que fomos ontem, unha e carne.

Lembra das noites insones que nos oportunizava conversas tão rasgantes, mirabolantes e até tolas? Eu não as esqueço. Lembro dos versos que suas palavras descompassadas tentavam minar e de seu hálito fresco tentando roçar meus ouvidos impuros. Você era desastrada. Era não, é. Já eu gostava de me esconder debaixo do charme que as palavras possibilitam e sempre fui o inverso de você que era descuidosa, sempre pronta a esparramar letras pela cama.

Você era assim, falastrona, sem o menor pudor que suas palavras jorrassem e eu as acompanhasse com surpresa ou agradável pavor. Até que lentamente, como se uma epifania tivesse te acometido, você mudou.

Não, e não foi apenas você, fomos nós. Parte de nós mudou significativamente, e de repente não nos achávamos mais embrulhados nos lençóis. Éramos estranhos se cheirando a todo tempo para conseguir identificar os rastros do antigo companheiro. Das prosas delicadas. Dos versos mudos. Das horas incertas. Da emoção inconstante.

Como se não bastasse, seu timbre mudou, havia nele um tom de improviso. De alguém que não ensaia o roteiro e fica se debatendo, desguiado, feito as ondas do nosso mar, aquele mesmo mar que foi testemunha de nosso amor urdido. Nossa trama que fomos incapazes de concluir o script. E ver essa sua mudança, sem me movimentar era insuportável. Eu queria aqueles olhos antigos, tão negros e tão profundos que a vida se despedaçava ao mergulhar dentro deles. Mas eles não estavam mais ali, debaixo dos seus cílios estranhos, alheios. Eu queria você de volta, e me angustiava pensar em não tê-la do meu jeito, apenas e exclusivamente da minha maneira. Sua conversa, sua pernas preguiçosas se roçando, sua pele branca, de um branco tão elucidativo que deixava suas palavras desnecessárias. Você era a pureza do sorvete de flocos intocado, meu bem, e tudo se derreteu. Tão rápido. Tão apressadamente.

Seus mistérios foram sendo revelados aos poucos, sua leveza inventada foi se desmistificando, os cabelos tingidos de negros foram descobertos. Aquela mesma madeixa que servia para confundir as minhas impressões físicas, era desde a seguir, um manto que descoberto mostrou o que devia esconder. E foi tudo tão rasteiro e tão inadiável quanto um despertar sonolento e bocejoso. Você, que era segredo, tornou-se bom dia. Tão dado. Tão neutro.

Nós deixamos o receio do estranho nos vencer. Não fomos possíveis juntos. Não conseguimos praticar o exercício do amor, a doce atividade de abrir mão de nossos medos. Esse medo que nos acompanha da infância e que faz as figuras construídas na imaginação desmoronar vagarosamente sobre os destroços de nossas edificações e nossos conceitos. Esse medo que não se encerra nem agora quando é fácil destinar essa carta.

Meu bem, por que as coisas acontecem de um jeito que não podemos prever? Não, não responda. Fique muda, me olhe de soslaio lá da esquina, feche seu sorriso embraquecido pelo dia ensolarado, suas mãos cortantes: guarde-as pra si; enxuga as letras que despencam de sua boca. Não vacile. Feche-se. Esconda-se. Ame-se. E me procura apenas quando seus pensamentos se reordenarem. Esses mesmos pensamentos que agora hesitam em atribuir um ponto final... Porque os dias de sol que passamos separados, esses pequenos dias, nos deixaram vulneráveis, embora saibamos que nada mudará. Nada.

Assinado: Bruno S. de Mello

Seguindo Estrelas – Paralamas do Sucesso

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10 comentários:

Lailla. disse...

ai, menino, você me dá uma inveja! esses seus conjuntos de palavras e poesia são tão bonitos!

Pedro disse...

Adorei suas palavras, sua forma de escrever.

Lucca disse...

O amor faz essas coisas...

•๋● Daiaи£ •๋● disse...

Affs! É maravilhosa.

As palavras foram tão sutilmente
usadas que é possível eximir
a melancolia que deveria causar.

Atribuí personagens (Não-fictícios). Fui, sou talvez, testumunha duma nestes mesmos moldes, com este mesmo fim que parece pedir reticências ao invés de ponto final.

Anônimo disse...

Interessante... espero que tenha final feliz...!rs

tamy disse...

ameii,muiito bom msm!!

Lilyca disse...

Nossa é incrícel comoum estranho pode falar tão bem da minha intimidade. rsrsrsr Me identifiquei muito com o sentimento expresso no texto.

Bj, muita inspiração seja derramada sobre você.

Lucas Queiroz disse...

Olá Bruno, Beleza man? Rapaz cada dia você se supera, continue assim...

Mario Pinho disse...

Interessantíssimo. Este texto é muito belo, delicado e profundo!
Sem contar a intensidade das palavras do começo ao fim!

Abração!

Janayana disse...

Adorei! É incrível como as palavras são capazes de tocar as pessoas...