A Partida

O filho chegou a casa numa tardezinha de sábado. Chovia muito e o sol se escondia por detrás das nuvens carregadas e se via quase que um arco-íris desenhado no céu. Mirando o quarto da mãe, viu uma senhora sentada sobre a cama, com a cabeça baixa, pensativa e solta no mundo enquanto penteava os próprios cabelos com pouca vontade e olhando, com melancolia, a sarjeta ou a solidão. A mulher encarava o chão com uma perturbadora fome de nada.
Não bateu na porta, entrou de surpresa. A mãe olhou com uma mistura de carinho e espanto, afinal não esperava o filho numa tardezinha de sábado. Aguardaria o seu querido primogênito na manhã de segunda quando lhe iria aprontar um banquete e esperá-lo com o melhor dos sorrisos, mas não, em um sábado, justo em um sábado de tardezinha quando as coisas parecem tão pequenas e mínimas e a solidão parece crescer e tomar forma. Justo naquele sábado que o vigor lhe faltara até para fazer a caminhada matinal. E mal tinha almoçado porque não apreciava fazer a própria comida aos sábados e não teve fôlego para fazer a refeição na casa das vizinhas. Viu-se flagrada. Constrangida de estar tão exposta ao inusitado.
Pálida e transtornada, escondeu a tristeza debaixo das dobras do lençol. De braços abertos o filho dirigiu-se à mãe com o seu sorriso mais contagiante e tomou a mãe com seus braços daquele jeito que faz as coisas terem sentido e tudo mostrar-se tão singelo. A mãe repartilhando o abraço e ainda abafando o flagrante, entregou ao abraço todo seu corpo magro e doente. O filho percebeu a fragilidade da mãe e perguntou-na o que havia que seus braços estavam tão jogados ao nada, tão... assim. A mãe queixando-se da idade disse que não era nada e culpou, ligeiramente, à tosse que lhe acometera há dias, muito embora pudesse não ser verdade. Como se não bastasse o flagrante, o filho havia notado a relutância da mãe tomar o remédio que o médico passara, e balançando a cabeça dizia que ela continuava a mesma, concordou com o filho, acenando, ainda intimidada. O filho tentou repreender aquele mal hábito e trouxe a si próprio de exemplo dizendo-se tomar regularmente umas doses para amenizar uma tosse que ele também julgava ter. Tossiu ele. Logo depois, tossiram. A mãe resistente disse que não era assunto para o agora, mandou-lhe desarrumar as coisas anunciando-lhe o apressar das horas de descanso quando enfim seu filho teria tempo para passear pelos campos e relaxar sua mente exausta de cidades e sinaleiras. O filho assentiu, e disse para que ele pudesse desfrutar toda paisagem seria necessário que a mãe levasse o medicamento à sério, propôs.
Foi para seu antigo quarto, desarranjou as malas, retirou as roupas da sacola, apanhou o seu melhor short e vestiu, calçou as meias e ainda pensativo como quem desarruma as malas e pensa e vacila. Pensou na saúde de sua mãe.
Com o pesar das horas, conseguiu dissuadí-la a consumir o medicamente, não sem que ela ditasse condições. Ela tomaria o medicamento no mesmo horário que seu filho fosse tomar os seus medicamentos. O filho disse apenas que sim, entusiasmado. E foi-se o tempo. Tomou todos os dias até que se veio a hora de despedir. Uma despedida longa, cansativa, a mãe já com os braços falidos de tanto acenar, querendo devolver aquele abraço da chegada, convidativo. Mas o filho já longe se misturando com o horizonte mirando o além e com sua mochilinha nas costas. E a mãe dando um thaul para o nada e pensando na saudade que lhe tomaria a graça e os brônquios.
Já em casa, muito distante, o filho sentou-se na cadeira e depositou os pés em outra cadeira, viu o horário saltitar do relógio e lembrou-se do remédio. Retirando-o da bagagem, encheu um copo de água e tomou pela última vez o medicamento acreditando que sua mãe, por isso, estaria fazendo o mesmo. Sentiu-se amenizado. Sentiu-se não como um doente de tosse falsa que era, mas como um doente de distância, restaurado pelas contínuas doses do frasco da lembrança trazido na bagagem.
* O titulo tem vários sentidos, mas dentre eles destaco a capacidade do sentimento partir-se em vários.

5 comentários:

Katrine disse...

E como explicar esse sentimento tão belo que descreve no texto?

Incomparável e indescritível.

Abraços e boa semana

Taty Maria disse...

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http://mistureba-cultural.blogspot.com/2010/11/festzoom.html

G.S disse...

Tem uma coisa no que ele escreve que parece que tem de matar um pouco da gente... E o pior é que esse pouco nunca acaba.

Lailla. disse...

"De braços abertos o filho dirigiu-se à mãe com o seu sorriso mais contagiante e tomou a mãe com seus braços daquele jeito que faz as coisas terem sentido e tudo mostrar-se tão singelo."

Acho que explica bem a importância de um abraço. Belo texto, calouro! rs

Lailla. disse...

"De braços abertos o filho dirigiu-se à mãe com o seu sorriso mais contagiante e tomou a mãe com seus braços daquele jeito que faz as coisas terem sentido e tudo mostrar-se tão singelo."

Acho que explica bem a importância de um abraço. Belo texto, calouro! rs