A Cegueira do ódio

Estar mudo.

E querer estar mudo, em silêncio, sem nada pra falar, pra pensar. Preso dentro de uma cápsula de mudez, curtindo a devassidão das cinzas com os sons ausentes. Prisioneiro deste mundaréu de liberdades, de vaidades. Exilado de seus próprios pensamentos. Oscilando entre a escuridão, a cegueira e a lucidez. A morte parece próxima, tão próxima que não enxerga sua sagacidade, tamanho, sua fome de si. A ignorância vacilando no mar da embriaguez, da inconstância, da incerteza e de tudo que não se concretiza. Embora a ausência de solidez persista, consagra o calculo e a pretensão de estar longe dela. Desesperadamente distante de seu brilho, de seus olhos mafiosos, obscenos.

Ansiosamente destinado a não amar. Faminto do não-amor, do ódio cru, indolência e profandade que sua pupila nega, mas seus raciocínios ofertam. Ela merece o detestar, pestaneja. A irracional negação tão profunda e tão faminta quanto o próprio estômago podre. O esquecimento. Ou algo que pareça com esquecimento. Não pode desistir de esquecê-la, conclui num respirar fundo e negro.

Crê que a maldade, a frieza e o cinismo são juntos os seus companheiros. Roe a unhas, caminha sem olhar as vitrines, corroendo-se. Dedicado a tentar esquecê-la. Detestá-la. Mal amá-la. Recorre ao abismo de seu coração. Perde-se. Para, ressente e silencia com as palavras certas nos lábios.

“Cicatriza! Cicatriza!”, pensa ligeiro assoprando as folhas da arvore.

2 comentários:

tiago disse...

De "roupinha" nova!! Nova fase?

Anônimo disse...

Menos pela cicatriz deixada, uma ferida antiga mede-se mais exatamente pela dor que provocou, e para sempre perdeu-se no momento em que cessou de doer, embora lateje louca nos dias de chuva(fina).