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Texto 10


Em julho de 1843, provavelmente numa tarde ensolarada de Portugal, onde se encerra o espetáculo do sol já bem depois das seis da tarde, pairava nas ruas coimbrenses um sabor impermeável de nostalgia. Descendo, quem sabe,  as escadas monumentais, um sujeito derruba seu livro em meio aos degraus, distraído e fascinado pelo brilho crepuscular escalado naquele entardecer. Talvez procurava um lugar para descansar os papeis pesados, catatal volumoso que fora buscar na biblioteca para mais um fim de semana embriagado em literatura, boemia e saudade do Brasil.



Apoiando-se nas encostas das monumentais, o poeta esqueceu-se ali, parado, compenetrado entre um raio solar e uma vaga ilusão de que havia uma terra natal, tropical e quente, a sua espera. Enquanto contava os 125 degraus esculturados no chão, no clima fazia-se mornos dez graus, um frio cinzento e fresco, quando uma folha úmida varrera o chão gasto e acimentado. Deste impacto, o poeta absorveu uma irresistível vontade de praticar seu ofício, a luxuria espetacular que sua pena fazia no papel, riscando-o e arriscando a vida do poeta a ser uma arfante testemunha do sentimento de saudade. Foi ao anoitecer que o poeta firmou o braço e finalizou seus versos e foi ainda orbitando dentre seus pensamentos que espetou a última palavra no caderno. Gonçalves Dias, que eternizou a saudade da terra natal em sua Canção de Exilio, sem delongas, e com doçura, nos transformou e nos vestiu com a capa de herdeiros diretos desta agonia que perece o sujeito que ao retornar para suas raízes e vê-las com os olhos de molho, distante dos exageros dos parágrafos, depara-se com uma realidade por vezes difícil demasiadamente de superar as belezas da literatura. 



Foi contracenando com esta agonia que voltei, no último fevereiro, para o berço carnavalesco de minha Bahia. No último dia de folia, em Salvador, antes mesmo de que as cinzas se derramassem na urbanidade soteropolitana e fosse decretado o despejo sensual do rei momo, cuja vida mansa e burlesca seria deposta, foi ainda sentindo o último ressoar de trios elétricos que pousei na capital baiana, com o coração embebido em memórias, com a alma desperta e numa pretensão absurda de deixar no aeroporto a agonia do retornar. Felizmente, as memórias brancas do frio europeu estariam espalhadas pelos meus hábitos, vícios, conversas, textos, e sim, caros leitores, estas memórias brancas – que nestes dias que sucederam a minha chegada tanto me renderam conversas e poesias - também me torturaram, como num fado tropical, cantado por um tal de Chico Buarque, quando ao lembrando do seu exilio, o intérprete assume a dose de lirismo que herdara dos portugueses, “além da sífilis, é claro”. E entre uma nota trêmula e outra de fado que nós, repatriados, desabotoamos as tão recentes vivências, chocados com a bruta realidade de um Brasil, que em nossa mente saudosista, ostentava um colar florido – e somos levados a concluir que em nossa distração, do outro lado do mar, fomos nós mesmo que pusemos todas suas flores, uma a uma, ilusoriamente. 



Quando arremessamos os casacos de inverno, os apetrechos essenciais do frio, e os enterramos numa mala que mal veremos nos próximos meses, a experiência de retorno se materializa. Estivemos mergulhados numa outra cultura, rotinas outras, pessoas outras, uma língua com corpo diferente, aquela solidão compartilhada por brasileiros e brasileiras que tomam uns copos em bares, pubs, que frequentavam as boites juntos, intensos em sua medida, inseparáveis do Skype; que lia, dentre uma aula portuguesa e outra, um verso de Drummond, ouvia uma música de Vinicius, ou até zapeava os vídeos populares no Brasil, só pra não esquecer que deixaram aquecido um lugar inteiramente seu. E nesta sombra se compõe os versos mais exagerados - como os retratados no título - belos em sua essência delirante, descrevendo pássaros que, ao retornar, nem mantém a força de seu canto. A realidade brasileira, permeada de Felicianos e politiqueiros, poluição e esgotos expostos, velhas putas e putas velhas, derrama sobre sua cabeça um caldeirão nada divertido. Então concluindo que Alice é obra de ficção e não poderemos nos albergar na literatura – não sem nos desconectar da mil mazelas a que a carne é sujeita – enfrentamo-la. Todos os dias. Voltamos aos parentes. Contamos novidades consideradas exóticas. Praticamos hábitos, por alguns dias, inadequados – como minha sede de chá num calor de quarenta graus. Estudamos. Se não nos ferimos atropelados, voltamos a compreender que o trânsito brasileiro continua uma estupidez. Trabalhamos. Voltamos a rir de velhas piadas. E a marca do intercâmbio, vivo em cada folículo de memória, vai se escanteando para dar lugar ao imbatível presente. 

A experiência de lá nunca será escrita, falada ou cantada em toda sua grandiosidade. E nos restará recuperar-nos da vertigem, superar a agonia, esquecer os males e viver brutalmente sentindo saudade, quiçá de pessoas que você nunca mais vai ver... Será então tempo de germinar um último texto, aquele colhido do amor entre a poesia e a realidade, e dizer que se começa um novo exílio, em nossa pátria, em nossa raiz, em nossa cristalizada memória. Portugal viverá em nós: em mim e no poeta.


(Bruno Silva - Abril de 2013)
Texto 9:


O por-do-sol de Belém
Lisboa é uma amostra colorida e enfeitiçante do mundo. Na beira do Largo de Camões, estendido junto ao chão um pano imenso com echarpes coloridos à venda. A vendedora, uma indiana morena com sotaque inescondível, me alertava que eu levasse logo o cachecol selecionado antes que a policia chegasse e interrompesse o negócio. O medo e o suor enxaguavam o rosto da senhora emergindo-lhe uma empatia clandestina e as luzes coloridas do natal davam-lhe um aspecto particular de sua cultura como se, dentro de Lisboa, também estivéssemos mergulhados numa das ruas abarrotadas da capital indiana Nova Délhi.
Lisboa é sussurro da história dos descobrimentos. A solidão vazante dos lisboetas se liquefaz nesta época do ano, natal e ano novo. A cidade vibra de estrangeiros e turistas, delatados sempre por seus enormes mapas empunhados debaixo dos braços e os nativos, inacreditavelmente, são muito bem receptivos a eles. Brasileiros estão aqui aos montes. Dobra-se uma esquina e se ouve música de todos os tipos – mas as brasileiras são as mais tocadas. Entre jazz e blues, o bairro alta é a corte boêmia deste império e por muito indicada como um dos mais românticos lugares pra se estar. E Belém, que paisagem linda, uma catedral de sonhos e fantasias – representa bem a grandeza e a derrocada do império lusitano. Os ingleses estão aos bocados também. Mas o tratamento dos lisboetas aos ingleses é excepcionalmente comum atualmente. Os alemães são os novos ingleses. Babados, mimados, queridos e amados. Até que a crise rompa este paradigma. Já tá em tempo dos alemães entenderem seus limites. Portugal quer respirar sozinha, tem uma costa oceânica suficiente para se comunicar com o mundo, como nos tempos antigos: desvendando novos mares. Já não há geograficamente tanto a se descobrir. O homem foi a lua. Provavelmente daqui a pouco vai preferir morar em marte a coabitar na Terra. Mas há hábitos novos e mais saudáveis a descobrir e acolher. Lisboa já tem esta faceta. De toda Portugal é a cidade mais oxigenada. A cultura ferve. Um caldeirão em vapor.
Monumento  1º Travessia Aérea, em Belém
Lisboa é um banquete de pequenos prazeres. Seus castelos, arquedutos, museus, oceanário, torres, são deleites e viagens obrigatórias. A fundação Saramago é uma belíssima homenagem ao escrivivente português. As tardes demoradas que Fernando Pessoa tanto escreveu, estão lá, decoradas por seu por-do-sol único na beirada esvoaçante do rio e cortado pelo mar, como uma redoma de prazeres. Lisboa não faz promessas. As cumpre. E muito bem.

O Mosteiro dos Jerónimos em Belém
O contraste da crise e a beleza escultural, claro, é esmagadora. Enquanto os centros comerciais, na véspera do natal, enfeitados e lotados, enfrentavam a correria capitalista e a brutalidade de encontrar o presente ideal, do outro lado da rua numa igrejinha formava-se uma fila cada vez maior de crianças esperando um pedaço do pão natalino a partir da solidariedade franciscana, do pequeno e insuficiente excelso de generosidade, reproduzida no natal, esquecida nos outros trezentos dias. Lisboa é brutal em todos os aspectos. Para além de sua beleza histórica, está sua gente, plural, hospitaleira, fascinante em seu cotidiano vulgar. E suas ruelas fazem pontes diretas com o que há de mais rico na cultura européia. Unido modernidade e classicismo, Lisboa é um poete amado feito sob medida para poetas, cantores, admiradores e artistas de todo tipo. Em um próximo texto tento desmontar parte a parte minha viagem a esta delicia oceânica. A visita a Belém, o que encontrar no Oceanário, onde se divertir, o imperdível das exposições artísticas, concertos de Fado típico, o famoso pastel de Belém. E vou tentar upar algum video da visita ao  belíssimo castelo. Até já.
Centro comercial do Chiado


Eu tinha noção de que dezembro seria um ruído na vida de todos intercambistas. Um mês longo, neste clima frio, as vésperas de datas tão familiares quanto dolorosas. Perdas, ganhos, despedidas, nascimento e morte. No caso, nascimento da figura cristã e o adeus a mais um com metas não cumpridas, como a academia protelada, a glicose exageradamente ingerida, estas pequenezas. Também significa renovação de expectativas, mudanças, toda esta parafernália emocional capaz de desestabilizar até um bloco de gelo num sopro.
Mas meu dezembro estreou ainda mais furioso. Amanheci o primeiro dia do natalino mês com o ultimato de que a minha casa, aquela composta por estrangeiros - agora já coadjuvantes desta aventura - que esta casa ia se desfazer. Mais um ingrediente perturbador neste espiral encandecido. Por questões relativas às despesas altíssimas e aluguel pouco em conta, os moradores - exceto eu - decidiram buscar um novo lar. Um a um, pouco a pouco, foi se despedindo. Para não pormenorizar este jogo de despedida, em resumo, restou apenas eu nesta casa - até próximo dia 21, quando o fim do mundo dará conta de todos nós. Pouco acredito neste fenômeno, porém prefiro me apegar a esta ilusão do que conceber esta realidade: A Panthouse acabou. Todos se foram. Os ex moradores, e agora eternos amigos, vieram buscar seus últimos e pesarosos rastros. Os penosos resquícios de nossas memoráveis histórias, pouco a pouco, deixaram de se acumular por sob as paredes deste castelo na rua pedro monteiro - onde promovemos as melhores festas, encontros, bagunças... e agora restará o consolo da memória humana, tão frágil quanto vulcânica.
Este texto, não por acaso, é um tentativa frustrada de envernizar as sinapses. O desejo de proteger este quadro de histórias, tantas tristes, mas o triplo de outras alegres e divertidas narrativas, todas exóticas um para o outro por se tratarem de estrangeiros de berços, todas comoventes por que o destino praticou seus truques para que os tripulantes da Panthouse fossem não menos que nós, este desejo é a missão do oitavo texto. Enfim, este é um adeus - não das pessoas, que estarão sempre aproximadas pela força do Facebook e em encontros marcados por este mundo afora, mas é um adeus ao momento. Nunca mais se repetirá na história dos próximos setembros, um igual a este, em 2012, quando havia na rua da biblioteca municipal, logo na beira do perfumoso jardim da sereia uma turma tão variada e genial. Nunca se repetirá.
Dezembro, no entanto, recepciona amabilidades. Este caldeirão europeu fervilha boas coisas para fazer, peças espetaculares estreando no calendário, como Doze Homens e uma Sentença, alguns shows, muitas doses de Shakespeare nas quartas dezembrinas, luzes decorando o centro – que a partir de agora remonta um ar cinematográfico dos filmes de Woody. Por fim, estas manhãs brilhantes de sol – tão cenográfico quanto uma flor de plástico – embora luminoso, orna bem com passeios de bicicleta, com tardes nas piscinas aquecidas, e a hora de fazer um tour pelos arredores desta cidade recanto, Coimbra.
Não vou me alongar. Este é mesmo um texto que me dói escrever, mas que é necessário. Não farei outras conversar, não tratarei de outros turbilhões de temas que andam acontecendo por aqui, como a estreia do canal Globo nas terras lusitanas – marcado também por visitas de Lima Duarte, Mauricio Kubrusly e outras atrações do assediado ano do Brasil em Portugal – sim, estou vivendo uma overdose de minha própria cultura circulando aqui. Deixo estes temas para outra época, quando também vou contar meus planos de fim de ano na Espanha, uma ideia louca de filmar e disponibilizar na rede alguns vídeos, muitos apresentando alguns lugares, outros enaltecendo a cultura local do pais. Minha história de um Dezembro na europa, finalmente, chegou.
Dezembro. Uma palavra que começa num ruído contínuo e termina como se o som pudesse desmoronar e romper o limite do tempo e do espaço. Dezembro, um recomeço lento e suave como um contraste do vermelho ao branco. Dezembro, um desenho brutal de que o futuro se aproxima.
Deixo vocês com um dos meus videos, é a minha gravação em turco de algo que escrevi para me despedir dos turcos (não está legendado, mas basicamente é um declaração de amizade e respeito). Ofereço aos leitores – e em especial a Yolanda, Alana, Juliana e tantas outras pessoas cujos feedbacks me deixam super estimado.

http://justbrunos.tumblr.com/video_file/37191306791/tumblr_meiktwJQLu1qg2rne




Este é meu sétimo texto pra o blog. No inicio eu pensava que seria um espaço para trocar experiências sobre viagens na Europa, e ai foi invergando para um lado, caindo para outro, muitas vezes se aproximando mais da poesia do que relato e prosa. E cá chegamos, completando dois meses de vida da coluna. Como a justiça brasileira, meus textos tardam e falham no objetivo, porém recepcionados por agradáveis feedbacks. Tantos que resolvi comentar alguns assuntos mais distantes da rotina de um viajante, embora bem nítidos para quem resolve permanecer por mais tempo em um lugar. 

Sim, a crise internacional chegou na Europa já faz tempo, desde que Bin Laden cultivava sua barba exótica e Obama era um idealista democráta. Hoje, que o criminoso está alguns palmos debaixo da terra e nosso alegre presidente americano já mostrou ser mais do mesmo, já podemos observar com mais clareza esta crise de proporções estruturais. Eu não colocaria minha mão no fogo pela veracidade de uma crise numa base que se mostrava tão sólida como a Europa, se, o fato crucial de eu morar por aqui não me jogasse no lugar de expectador compulsório deste colapso. Nos jornais não se fala de outra coisa. As noticias desanimadoras estão espalhadas por todo canto, desemprego, falências, baixos salários e impostos engolindo impostos. Pela televisão a gente repara a voz monocórdica lusitana dos apresentadores anunciando mais cortes, quedas das expectativas econômicas e as esperanças populares esmiuçadas a cada plano novo do governo. 

Na última quinta-feira a Europa se mobilizou. Uma greve geral paralisou os trânsitos das maiores capitais, parou escolas e comércios, e tudo isto acompanhado por manifestações nos maiores centros de Paris, Itália, Espanha. No entanto, há pouca reflexão do senso comum do que este colapso representa. Aqui em Coimbra pairava uma aura de feriadão, alguns alunos estimulados pela falta de aula e muita gente acreditando que era um dia de comemoração... mas me diga comemoração do que? Da crise? É absurdo e trágico como a peça Hamlet de Shakespeare. A reflexão de que aquele era um dia de luto, de revolução era substituido por um defeito colateral que atinge todo ser humano, a hipocrisia. Este sentimento, universal, faz a gente acreditar que tudo está bem, até que ninguém mexa em nosso queijo. Só aí a trama se adensa e tomamos o real sentido da greve, a Europa sente, enfim, a necessidade de se reinventar.

Acabaram já há muito o tempo da grandes navegações. Por mais condecorador ou triste que sejam o passado destes paises, uma certeza é clara. O mundo mudou. E a Europa, ocultada nesta grande parede de gesso que é a União Européia, vai ter que abrir suas portas. Ou vê-las raxar ao meio. Não dá mais pra se ancorar nas velhas conquistas, na busca fácil por novos horizontes a colonizar. O mundo se acostuma, aos poucos, com o que chamamos de liberdade. O periodo malicioso das colónias se agravou e está a beira do seu fim. Não vou discutir culturas e democracias, mas a liberdade e a independência, no seus sentidos mais amplos, já são um objetivo mundial. A Grécia já percebeu isto, o oriente médio também. A Europa, implacavelmente, está sentindo o ruído, se não amplamente, decerto no seu horizonte econômico, por ora embaçado. E nem a tecnologia pode nos salvar facilmente.

Vivemos uma época de fantásticas descobertas tecnológicas, só nos falta reinventar a roda, mas ainda cultuamos uma cultura de monarquias e impérios. Disfarçados pelas mínimas aparições da rainha da Inglaterra se esconde a inconsciente vontade de diluir este mimo cultural. Desde que aprendi a ler, vejo estampado nos jornais o desfalque que manter uma cultura de luxos aparentes, uma rainha, um rei, que seja, provoca nestes novos tempos. É como se ainda vivêssemos nos tempos do príncipe dinarmaquês. Onde o culto a parafernalha, aos tronos e as glórias, preservassem o prestigio de um país. Não acho que hoje se mede o sucesso de um pais pelo tamanho de sua realeza, pelo contrário, me parece uma ideia absoleta. Podemos calcular a vitória de uma nação pelos cuidados que esta prestam aos seus cidadãos. Pois então o que sugere esta nova onda de suicidios na Espanha desde a nova lei de Despejos? Uma realidade brutalmente desumana. Impensável forjar uma ameaça como esta, a de doar a própria vida ao ver despedaçados os planos de moradia em um país que lhe abrigava. Este pra mim é o retrato da crise na europa, uma crise, não só de dinheiro, mas de costumes. Não dá pra ignorar estes sintomas. Nem mesmo eu que poderia estar simplesmente experimentando as benventuras de uma viagem a Europa posso ficar indiferente.

E pra quê melhor reinvenção do que os rumos que a Espanha e Portugal estão tomando? As últimas noticias são de votos espanhois para que a América Latina aceite alianças. O Brasil, já a algum tempo, faz parte da principal maneira de espape da população portuguesa. E com razão e legítimamente. Os investimentos espanhois no Brasil nunca obtiveram niveis tão altos. É tempo de colonizados e colonizadores dispacharem este passado e emplacarem a nova maneira de relação internacional, ancorada na diplomacia e na igualdade de poderio. E isto é sinal de maturidade. A história está sendo feita ao vivo.

Até mais.
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"If you are lucky enough to have lived in Paris as a young man, then wherever you go for the rest of your life it stays with you, for Paris is a moveable feast*" (Paris é uma Festa – Ernest Hemingway)

Devia ser proibido ensinar palavrões para um estrangeiro. Não é porque proferir este nomes feios são moralmente vergonhosos. Esta lição vocês já tiveram em casa. Mas é que a língua de um pais é complexa. E só os nativos ou somente depois de muita prática, um estrangeiro pode deter o real sentido e o temperamento das palavras que aprendera.


Andei brincando de falar a língua turca com amigos de Istambul que formei aqui em Coimbra. Para que fosse pedagógico, dividi minhas lições da seguinte maneira. As meninas me ensinariam palavras bonitas, que devem ser empregadas sempre. E os meninos fariam o trabalho sujo, ensinariam-me as palavras, digamos, mais entretidas, o palavrório menos polido. Isso não deu muito certo. Minha memória, que também gosta de brincar, me traiu e alterou os sentido de algumas frases e acabei dizendo Seni Seviyorum (eu te amo) às pessoas erradas…

Iluminei uma lembrança agora de Chico Buarque, do romance Budapeste. No inicio do livro, o autor enfatiza que devia ser proibido debochar de quem se aventura numa língua. Mas como fica o prazer universal de ensinar um estranho a pronunciar coisas indizíveis? Como brasileiro, ainda lá no Brasil, já gargalhei ensinando franceses a se auto-mau-dizerem. Pois aqui me tornei vítima destas façanhas.

Estou turco.

E dei pra murmurar sozinho a suspeita de um ligeiríssimo sotaque turco. Sempre gostei da variação dos sotaques. E nunca, como todo mundo, reparei no meu próprio. Porém semana passada dei por mim que ele existia e tocava Axé. Bastava eu abrir a boca para que meu sotaque baiano cruzasse a avenida. E todos os outros sotaques, nos quais já fui profissionais em imitar na infância, como o famoso português e o afrescalhado francês, tem descido ladeira abaixo. Estás a perceber? Nada surpreende tanto quanto o choque entre o estereótipo e a realidade. Conheci o Pierre, um francês que ofusca completamente a ideia cansada que obtemos dos homens franceses. Nada de boina, nada de estilo sofistique. Inclusive ele me garantiu que toma três banhos por dia. Eu, óbvio, não quis duvidar. Conheci alguns alemães que desmascararam de primeira a fama de rabugentos ou antipáticos. Estas qualidades ultrapassam a barreira dos continentes. Gente rabugenta tem em todo lugar. Tá aí uma coisa que não discrimina ninguém. A chatice é uma característica transcendente. Não escolhe judeus ou cristãos.

Ainda não fiz muitas viagens pela Europa. Já é muito interessante estudar francês e inglês em um pais de língua portuguesa, tenho gastado diariamente meu tempo nisso, sobretudo nas festas, onde a magia da comunicação acontece sem rodeios (vocês sabem porque). A desculpa é que tenho preferido fazer viagens ao interior de mim mesmo. Cafona isso, né? Pois. Apesar disso, eu já marquei minha longa viagem pela França. Reservei duas semanas de janeiro para escamotear e conhecer a cultura francófona. Depois do Festival de Cinema Francês da semana passada, o que era tentador ficou irresistível. Tenho certa repulsa daquelas viagens de um dia em cada canto, "conheça a Espanha em três dias", "Saiba tudo de Veneza em 48 horas". Se eu tivesse pressa, eu dava um google nestes lugares. E muito mais cômodo. Esse tipo de viagem só vale a pena para futuramente contar aos amigos os lugares que você visitou...ou deixou de curtir. Quer entender uma cultura, mergulhe! Ir aos lugares cansados de Paris qualquer zé ninguém com algum dinheiro no bolso vai, mas conhecer as formosas imagens descritas no livro de Hemingway são para poucos. E assim, decidi permanecer por 15 dias sob as noites frescas de Paris. Li Paris é uma Festa algumas horas antes de vir pra europa, e carrego comigo o conselho que está em inglês no cabeçalho do texto de hoje. Que aliás, tá ficando grande demais. Tem muito o que dizer. Preciso falar das figuras exóticas que nos deparamos aqui na Europa. Cenas do próximo texto. Portem-se bem. Au revoir.

Michael, o alemão sacana.



 
Patrimônio atual da Universidade de Coimbra, o sítio histórico de Coimbra denominado Quinta das Lágrimas resume diametralmente o sentimento de escrevê-los, passado um mês de minha chegada a Coimbra. O Quinta das Lágrimas é um jardim que recebeu inúmeras visitas da Família Real Portuguesa e é conhecido pela exuberância de suas fontes, uma delas, inclusive, nomeada por Luís de Camões como a Fonte das Lágrimas. Este daria um ótimo título para meu texto de hoje, um pouco atrasado, mas ainda quente e caloroso como uma fornada de Pastel de Belém.

O mês de outubro foi um mergulho no amarelo escaldante das noites Coimbrenses. As noites em Coimbra, ao contrário do que o Fado pode supor, são incrivelmente convidativas e alegres. Claro que de repente, numa esquina, você pode esbarrar com um grupo de jovens, trajados de capa, batucando sua triste canção, saudosa e melancólica. O fado coimbrense, realmente, faz lacrimejar qualquer um. Desta fonte, inclusive, bebeu nosso Vinicius de Moraes, que semana passada completaria 99 anos. Não é pra qualquer um. O poetinha brasileiro, que em Portugal esteve por muito tempo, escreveu um belíssimo fado com sua provável inspiração, Amália Rodrigues, uma  cantante portuguesa estupenda e de voz arranhada. Os versos diziam “o  sal das minhas lágrimas de amor criou o mar/Que existe entre nós dois pra nos unir e separar” e traduziam a quentura de estar do outro lado do oceano de quem se ama. Não é fácil não, mas é um desafio audacioso.

Vinicius tinha uma impressão cuidadosa e muito peculiar sobre Portugal. O poetinha gostava de repetir que as cidades lusitanas ainda não se despiram de seu formalismo. Cá estou mais de quarenta anos depois desta visita, e agora penetrado nestas raízes de onde o Brasil cresceu, e a impressão é a mesma.  Quando embarco  nas noites de Coimbra, minha sensação é que nem a madrugada pode derrubar o formalismo português. E o fado é apenas mais um dos resultados sanguíneos da tristeza imaculada que os jovens portugueses carregam consigo. Não é uma tristeza de sofrimento, mas um melodioso romantismo exprimido na música, no aspecto sério e na poesia diária que destas bocas lusitanas emanam.

Estou imerso nesta alegre vida de Coimbra. Vívida, sublime e com a saudade amenizada pelo contato diário com brasileiros. Como Vinicius, nunca fui um exímio patriota, mas o Brasil, de repente aqui parece diluído em cada centelha colorida e esbravejante do hino, bandeira, todos os simbolos que podemos nos apegar distante de nossa terra. Seja no amarelo das audaciosas noites de Coimbra, no verde dos belos Jardins e no formidável azul, imenso, igual e único do céu que é o teto de todos nós.


Falando em céu, que belas imagens circularam desta novela das 9 que começou ai no Brasil. Trago o assunto desta novela, Salve Jorge, a baila, porque cotidianamente vivo as tradições da Turquia com amigos desta terra, e tem sido uma interessante descoberta, entendendo a capital cultural Istambul, a língua - que já arrisco dizer algumas dezenas de palavras - e a cultura humanística e respeitadora deste povo. Esta novela, e qualquer obra que se preza, deve servir para abrirmos o horizonte de nossas mentes, entender que o diferente pode possuir grandezas tão valiosas quanto as nossas. Estou intrigado mesmo com a cultura turca e não se assustem se nos próximos postes eu revelá-los datas de uma visita a Turquia. Há novidades também de viagens para Marrocos e Madri no próximo mês, mas em breve falamos disso. Devo contá-los que amanha, cá em Coimbra, começa o grandioso Festival de Cinema Francês. Nos próximos dias meu assunto principal será o impacto destas obras francófonas, e a sensação de estar num grande festival conhecido em toda Europa. Fiquem bem, e qualquer hora escrevo mais novidades.

Texto 1: Horizontes Baianos: minha turnê de despedida
Texto 3: Enfim, Coimbra! 
Texto 4: O Idioma!  


O mês de setembro se foi e deu lugar a um outubro ainda mais lindo em Coimbra. Distante alguns dias do que deixei no Brasil, me vejo encarando cada segundo como uma vida inteira. Buscando experienciar verdadeiramente a cultura lusitana, me submeti de cabeça nos desafios que apareceram, sendo um deles, a língua. A língua nativa, curiosamente, é bem cuidado na formação das frases, mas falta-lhe a musicalidade que escorrega das falas brasileiras. No inicio tudo parecia desgrenhado, por vezes rude, pela maneira clássica que até o menos escolarizado diz qualquer palavra. Em seguida, o desafio de entender as aulas, em nossa própria língua, mas com um sotaque por vezes impenetrável. Foram muito tempo de atenção para se acostumar ao jeito português de espremer as palavras. Mas consegui superar. 

É então que me veio o segundo obstáculo, as outras línguas. Logo que cheguei a Coimbra, meu objetivo era residir em uma república, onde a língua oficial não existisse. Encontrei, procurando bastante, o Paint House, uma república de fronte da sinestésica Biblioteca Municipal de Coimbra. Era um convite aquela rua decorada por um imenso, arborizado e por vezes sombrio Jardim da Sereia. Comandada por um portuga, a Paint house alberga mais de dez moradores, nenhum que fale o português, e todos bastante receptivos a ideia de um brasileiro na casa. Foi então que me juntei aos moradores. No inicio era uma pequena Babel, um desencontro de línguas, porém com ajuda da mímica, do inglês, da boa vontade, fomos formando então uma pacífica residência incrustada no coração de Portugal. 

Portugal é um país repleto de belezas e de histórias. Gerações e mais gerações de conquistas, das grandes navegações e a áspera estagnação. Na contagem do tempo, não temos dívidas com Portugal. Na prática, temos muitas coisas semelhantes, como a língua e a tranquilidade parnasiana. Coimbra, por sua vez, é a cidade das capas elegantes, dos estudantes estrangeiros, a terceira maior cidade do país, com espirito de uma cidade enxuta e pacata. É a cidade dos Cafés, pequenos estabelecimentos que reúnem o melhor de um bar, padaria e lanchonete. Os cafés são lugares perfeitos para encontros ao fim da tarde, conversar com a gente daqui da terra ou resenhar com os amigos brazucas, que aqui estão aos bocados. 

Há muitos brasileiros em Portugal, segundo soube, vieram 1800 só neste ano. Muitos deles, desta conta imprecisa, encontrei aqui na cidade. Um gene brasileiro logo reconhece o outro. Na cor, no jeito mais atrevido ou, inquestionavelmente, no jeito fluido de falar. A despeito de ser brasileiro, aqui eu tive a felicidade de conhecer culturas que na Bahia não são populares. Descobri dizeres gaúchos que eu ignorava, outros hábitos, outras palavras – como borracho – e acabei sendo apresentado a muitos outros brasis… 

Os ouvidos portugueses estão acostumados com a fala engenhosa dos brasileiros. Além deles consumirem nossas novelas, muito de nossas dublagens, no geral, as rádios e danceterias tocam bastante a música brasileira. No último sábado, por exemplo, levei os colegas de república para conhecerem os mistérios do samba. Por tabela conheceram o bom forro xoteado da banda Samba Jah. Ficaram maravilhados. O caldeirão musical brasileira é impressionante. Ao som do batuque, no jeito de dançar, brasileiro é reconhecido pelo sorriso que esculpe no rosto. E a simpatia… que outra igual não há. 

Enfim, neste mês que se lança, irei começar a postar textos sobre os lugares imprevisíveis e excêntricos que visitei na velha Coimbra. Postar algumas fotos, talvez vídeos, para vocês se deliciarem um pouco com a história da grande Portugal e embarcarem um pouco nos monumentos que aqui descansam. Até breve!

Texto 1: Horizontes Baianos: minha turnê de despedida
Texto 3: Enfim, Coimbra!
O pôr do sol em Coimbra.
Parece ter demorado um bocado, mas finalmente chegou a hora de escrever alguns detalhes de minha viagem rumo a Coimbra. Vamos então!

O voo foi uma parte já interessante desta aventura. Não me havia caído a ficha até o último instante que o Brasil sairia de meus pés pra caber nas músicas e na saudade dos amigos e familiares - relativamente compensada nos laços que rapidamente formei com outros brasileiros aqui em Coimbra. A ideia de ser brasileiro vai conjugando raízes ainda mais profundas no momento da despedida. E foi o que me aconteceu. Protegido e instalado no avião, foi na decolagem, ao ver a Bahia já se desfocando ao longe, que eu disse adeus! ou até logo! ou até mais ver! Au revoir!

Cheguei em Lisboa numa manhã muito ensolarada e triste. Na companhia de outros brasileiros, fomos aprendendo os trâmites de uma cidade europeia já do aeroporto. Diferente de Congonhas e de qualquer aeroporto que se preze no Brasil, não havia pressa para nada e muitas filas (bichas no português nativo, nos próximos textos tenho histórias sobre como foi complicado entender os portugueses a princípio). Lisboa foi para mim uma travessia interessante e rápida. 

A beleza de Lisboa é explícita. Como metrópole, tem lá suas desvantagens, mas a harmonia e as construções contemporâneas unidas a outras estruturas rebuscadas formam uma visão espantosa e imponente. Quando atravessei Lisboa para tomar o trem, os cidadãos lisboetas ainda dormiam. (os comboios aqui são limpos, frescos e bastante calmos). E então me aconteceu algo intrigante. Eu havia mantido na superfície das malas, o plástico filme habitual que se usa para viagens internacionais, afim de que tudo se mantivesse preservado. Pois que foi uma má ideia. Os olhares dos portugueses para mim oscilavam entre repúdio e ojeriza. Sem entender, peguei dois comboios sem me atentar ao absurdo da situação, afinal, estava abatido da viagem; foram cansativas horas dentro do avião sendo pressurizado e despressurizado feito uma garrafa de refrigerante, os ouvidos queimando, os filmes multilíngues nas tevezinhas individuais que só testemunhavam ansiedade e expectativa, tudo isso contribuiu para que eu não entendesse o inconveniente. Logo percebendo que o plástico na mala era sinal de desconfiança - e não segurança como foi minha intenção - retirei o plástico, provocando muitas risadas dos passageiros.

Cheguei então em Coimbra, acolhido pela paisagem bucólica na beira do Rio Mondego. Faz muito calor aqui nesta época do ano. No primeiro dia, me concentrei em alojar minhas bagagens e circular pelas ruas coimbrenses. O sotaque, de longe, nem foi o problema ao perguntar onde se localizavam os lugares de meu interesse. O temperamento sim foi o obstáculo. Os portugueses falam contigo como se estivessem exaltados, ao mesmo tempo que não expressam nenhuma agonia em te dispensar logo. Pelo contrário. As pessoas, ao te passar uma informação, só faltam pedir que sente-se, tomes um café, converses as noticias do dia. São menos sorridentes e mais contidas que no Brasil, mas até o momento me deparei bastante com pessoas simpáticas, afinal, Coimbra exala os ares de uma cidade universitária, até auspiciosa se guardadas as proporções.

Muitas foram as surpresas desta viagem. Em cinco dias já consegui desenhar um mapa mental da cidade, traçar os lugares que frequentarei, entender um pouco dos modos e das tradições lusitanas, especialmente o que se come (achei as porções sempre menores, não se come em abundância nos restaurantes do centro, nem nas famosas cantinas universitárias - os bandejões do Brasil) o que se bebe (muito finos e vinho e tudo a preço bem agradáveis) o que se veste (merece uma postagem à parte as histórias curiosas dos trajes acadêmicos, as batinas, as capas e as fitas, além do famoso ritual de iniciação para se usar as roupas semelhantes as de Harry Potter e Hermione, com toda pompa e graça!)

Mas logo logo continuamos o contato. Escrevo agora de um computador no interior da Universidade de Coimbra, um lugar monumental, com suas imensas escadarias que formam um belo e pitoresco ambiente de estudantes frequentado por todas as nacionalidades possiveis. São quase 20 horas agora, o sol não demora a baixar e o pôr-do-sol é uma obra de arte inigualável em qualquer canto.

Até mais ver!

Texto 1: Horizontes Baianos: minha turnê de despedida
Texto 2: Rotas européias, expectativas e os três portugueses

Hoje finalmente começo o desafio de escrever sobre a viagem pra Portugal, os obstáculos superados, o saldo positivo de morar e estudar em outro pais. Ainda escrevo aqui do Brasil, de uma cidadezinha quente da Bahia, Jequié. Por aqui começo a traçar as rotas que percorrerei na Europa.

Quem não sonha em passear no Jardin des Tuileries em Paris? Andar nas bicicletas tradicionais de Amsterdã, conhecer a boêmia de Madri, viver uma noite inesquecível em Liverpool, no Cavern Club, onde aconteceram as primeiras aparições dos Beatles, meados dos anos 60, e onde ainda os astros do rock se apresentaram por mais 292 vezes, marcando toda uma geração do mundo com seu ritmo, estilo e musicalidade.

As expectativas são enormes em conhecer os museus da Inglaterra, os parques da Espanha, os bares da França, em especial o bar cujo balcão foi palco das cupidisses de Amélie Poulain. Sou um turista voraz e curioso. Rasguei os guias fáceis, rejeitei os destinos comuns, os lugares frequentes. Destes lugares esperem no máximo uma foto, um comentário, pois postagens inteiras ofertarei às coisas que me provocarem, sejam elas frívolas ou clássicas, históricas ou passageiras, tudo quanto for inesquecível receberá meu olhar demorado.

Carrego nas minhas bagagens pequenos lampejos dos lugares que desejo visitar em uma agenda e alguns rabiscos em um Guia da Coleção Primeira Viagem - Europa de Trem, porém estou convicto que as modificações, futuramente, serão imprimidas e traçadas na ordem do dia-a-dia, quando fervilharem as vontades, as oportunidades se expuserem, os companheiros comprarem a ideia de uma visita inesperada e imprevísivel a uma paisagem lírica, urbana, campestre, o que vier a cabeça...

Em meio a ansiedade, semana passada, aqui em Jequié, esbarrei com três lusitanos. Em uma pequena lanchonete de comida portuguesa, na praça do cilion, reconheci o sotaque e as empadas de bacalhau em aromático contraste com as comidas locais. Fui me envolvendo com a história daquela familia, um deles inclusive nascido em Coimbra (uma coincidência desfrutável e conveniente). Nas palavras dos portugueses, fui conhecendo as tradições das cidades lusitanas, o famoso fado lisboeta, os tradicionais estudantes coimbrenses enrolados em suas capas pretas e identificados pelas fitas coloridas que representam os cursos que estudam. Coimbra foi o lugar que escolhi pra ter esta maravilhosa experiência (depois explico o passo-a-passo até conseguir a bolsa intecâmbio pela UEFS na Bahia). Banhado pelo Rio Mondego, Coimbra, possui o charme e o agito de uma cidade estudantil. Em Coimbra, no dizer destes amigos, não se frequenta bares. Vai-se a "Cafés". E a rapariga que é rapariga de familia vai à discoteca. O aparente paradoxo da frase anterior é uma pequena amostra de como o português por lá promete render boas risadas. Além do sotaque, os lusitanos utilizam algumas palavras com o sentido diferente do nosso português latino americano. Diferenças de linguagens que beiram a boa comédia do mau entendido. Afinal, qual brasileiro não se urinará de rir da piada, antiga mas boa, de se pegar uma bicha ao invés de uma fila na padaria?


ATUALIZAÇÃO DE 07/09/2012:

Estou convencido de que meus amigos querem ir comigo a Europa. Todos os dias recebo presentes, lembranças, simbolos inesquecíveis de amizade. Roberto me presenteou com a sua famosa bandana do Bob Marley, pra que eu vivesse na vibe dos roots. Juliana me deu uma caneca pra tomar os famosos cappuccinos portugueses, chocolates e cartas. Yolanda me presenteou com uma almofadinha estampada de frases e mais uma chorosa carta. Alana me deu carta e dvds. Ganhei perfumes, sabonetes, cremes. Enfim, simbolos que me alimentarão de saudade lá em Coimbra. Porque a saudade vai ser grande. Mas o sentimento maior.

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O exterior de uma mala é escura e opaca até que se preencha de vida e cor com as bagagens do viajante. O viajante é a luminosidade dos destinos. Cada mochileiro carrega consigo a história de seus caminhos, os prazeres que buscou em cada porto, os encantos que experimentou percorrendo com ousadia, atenção e espanto cada país, região, lugar.

Minha história de viagem começa antes do trem partir e do vôo decolar. Começa nos últimos momentos que passei no Brasil, o céu baiano no horizonte cada vez mais distante e o sol tropical banhando uma saudade antecipada deste meu pais amarelo, azul e verde. E então que faltando alguns dias pra partir, o azul singularmente delicado do céu ficava cada vez mais azul e as noites, sejam elas as litorâneas de Itacaré, as sertanejas de Feira de Santana, as gélidas e vaporizadas de Vitória da Conquista ou as familiares e cálidas de Jequié, todas elas estiveram mais ardentes e graciosas nestes últimos segundos silvestres.

Pondo silenciosamente as roupas na mala, que não pode exceder os 32 Kg habituais das companhias aéreas, me flagro em um ritual cigano. Em algumas culturas, a pessoa que viaja leva consigo, impregnado nos tecidos corporais, a essência e fragrância de quem deixou em terra firme. Neste momento me surpreendo esfregando nos panos, não os perfumes industriais, mas sim as lágrimas mais íntimas de cada pessoa que amo, e que ficarão no Brasil, sem mim.

Experimento esta saudade dolorosa, porém feliz e consciente, de quem nunca atravessou um oceano, nem o menor deles, e de quem cumpriu com paixão e amizade os últimos 22 anos de sua vida, unindo laços fraternos, aplacando amores de todas as ordens, exaltando a companhia e a cumplicidade das pessoas cujo carinho me vestira e me blindara.

Embarco nesta jornada rumo a Europa inundado de histórias, algumas vividas, outras felizmente recolhidas em minhas peregrinações baianas, traços particulares dos amigos que deixo no Brasil, mas que ao mesmo tempo refugio no interior de minha mala. Levarei belas lembranças que ganhei antes de partir. A Yolanda me escreveu bonitezas inesquecíveis, cumplicidades inenarráveis tatuadas em sua almofada consoladora, me desejando uma jornada breve, posto que a falta de quem parte é uma chaga aberta, ainda que curável. Alana, minha doce tchu, espatifou este coração em dois, fez dele abrigo e me presenteou com um DVD que resume minha alma, Sociedade dos Poetas Mortos, um delírio cinematográfico sobre a liberdade. A mim, que nunca desviei de meu destino cosmopolita, cidadão do mundo, resta organizar os versos e símbolos das pessoas cuja estima confesso, grito e choro nesta pátria que me albergou.

Junto com roupas e livros, levo cada coração brasileiro, em meio as fitas do Bonfim, a bandana de Bob Marley que ganhei numa manhã insone de Itacaré quando o salgado das lágrimas se unia ao sal do mar nordestino. Carrego aromas das terras tupiniquins, as cores quentes dos baianos, o barulho furioso dos tambores, dos violões chorosos, das guitarras elétricas delirantes. Tudo que representa o nosso Brasil, vasto e diverso, único e explícito, migrará comigo nas memórias e palavras para os terrenos lusitanos.

Em Portugal, serei porta-voz vivo das alegrias brasileiras. As dores do Brasil, que doem desde antes quando Cabral assentou os pés em nossas terras, não se estancarão nos próximos meses, embora, em mim não haverá espaço para elas. Só haverá música e poesia, amor e gratidão.  Esperem relatos sinceros de um viajante. Aguardem impressões dos países que eu visitar, do idioma, cultura – rastros sanguíneos de outros povos. Me desejem sorte!

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