Ergo meus olhos em direção ao último copo de vinho Campo Largo descansando na bandeja. Bafo-a e bebo na típica violência faminta. A sobriedade já se foi a algumas horas. Eloisa também quando percebeu meu hálito fresco levemente misturado ao sabor de uvas mordidas, partiu. Eu acho que as sereias têm este hálito quente do último e decadente vinho vagabundo.
Confesso que não foi uma ótima noite. Entreguei-me tanto aos lindos lábios da madrugada, que confundi alho com bugalhos, troquei nomes, disse coisas, ouvi muitas outras e por fim, como no último ato de um teatro dramático, rodrigueano dirão, beijei feroz uma garota que dançava solitária na pista.
Até aí tudo bem. Homem é este bicho sedento pelo sabor insípido de bocas macias. Tudo bem que as mulheres sabem disso e arrotam estas verdades por todo canto. Tudo bem que a bebida foi a razão de eu sentir um deus dentro de mim, a ponto de tomar por meu quaisquer lábios aliviados que estivessem dando sopa. Tudo bem que não estava tudo bem entre mim e Eloisa.
Eloisa é geniosa. Reza a lenda que dá nó em pingo d’agua. É um oceano de gestos insinuosos. Ela me conquistou, por exemplo, me tirando pra dançar, me argolando as mãos no pescoço, de modo que não restava outra solução que não o beijo.
Da mesma forma ela me atirou um copo de bebida barata quando só restavam duas na bandeja. Um desperdício, dirão. Tanto drama deveria ser melhor usado entre um homem e uma mulher. É dramática nos outros sentidos também, se querem saber, na cama então. Se eu descrevê-la dirão que é muito para minha carroceria. Pois eu carreguei até o fim toda aquela areia. Fui nobre também: pedi desculpas. Disse que foi engano o beijo alheio. Que estava escuro, mas nada a convenceu do contrário, de modo que tomei um jato de bebida na cara. E agora que ela se foi, nada mais me resta a não ser o consolo de concluir o beijo que deixei pela metade na boate.
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